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Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2015

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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O pai da psicanálise, Sigmund Freud, estabeleceu oportunamente que “ a intenção de que o homem seja feliz não está contida nos planos da criação”i. Não possuindo uma visão espiritualista a respeito da vida, acreditava que, pela condição humana, estaríamos de certa forma fadados à ruína, que vinha através dos sinais do corpo.

Logo após as grandes contribuições psicológicas de Freud, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung ampliou a visão psicológica a respeito da condição humana, que para ele possuía um significado profundo. Em sua visão, temos um grande desafio existencial, que constitui harmonizar as nossas tendências inconscientes e conscientes, e somente quando tivéssemos realizado o intento, através do processo de individuação (o desenvolvimento pleno das potencialidades humanas), nos tornaríamos um ser integrado, tranquilo, fértil e feliz.ii Por conta disso, a visão junguiana propõe que, antes de buscar a felicidade, algo portanto possível, o ser humano deverá buscar o significado existencial.

A psicologia humanista, por sua vez, prosseguiu nas investigações a respeito da possibilidade do homem ser feliz, concluindo, nas palavras de Abraham Maslow, que “a coisa a fazer é descobrir o que é que realmente somos em nosso âmago, como membros da espécie humana e como indivíduos”iii.

A partir dessas propostas, verificamos que existe um grande desafio para o ser humano, que é desvencilhar-se de si mesmo e ampliar a sua visão de mundo, o que consequentemente inclui rever o significado a respeito da felicidade. Se para nós felicidade for sinônimo de não ter problemas, contrariedades e frustrações, é bem provável que não a encontremos em nossa jornada, pois são justamente os desafios existenciais que nos fazem crescer. Mas se a consideramos, por outro lado, como um estado que não nos isenta de enfrentar os naturais obstáculos que a condição humana apresenta, talvez estejamos mais próximos de encontrá-la em nossas vidas.

Em sua proposta psicológica e espírita, Joanna de Ângelis apresenta profundas reflexões a respeito da busca da felicidade. A Benfeitora nos esclarece a respeito de alguns inimigos que deveremos enfrentar durante a jornada, e que costumam infelicitar o ser humano:

- A visão hedonista da existência;

- A ilusão do ter, do poder e do parecer;

- A visão limitada a respeito da vida e da sua finalidade.

A visão hedonista nos ensina que a busca do prazer deve ser prioritária, e levada ao extremo não questiona os efeitos que isso pode trazer. Sem negar a realidade do prazer, que afeta os nossos sentidos, o ser consciente é convidado a refletir:

- A vida deve estar a serviço dos prazeres ou os prazeres a serviço da vida?

Cientes da nossa condição imortal, não podemos deixar de pensar nas consequências dos nossos atos. Assim sendo, a felicidade não pode apenas estar adstrita aos prazeres efêmeros, que muitas vezes trazem graves consequências. Deve estar vinculada a prazeres que, além de nos satisfazer, não nos comprometam nem àqueles com os quais os compartilhamos. Por isso mesmo, Joanna de Ângelisiv nos adverte:

“Colocando-se a felicidade na satisfação das necessidades fisiológicas e sociais, é inevitável que o despertar seja sempre deprimente, cansativo, destituído de significação real”.

Sob outro aspecto, enquanto preso à ilusão do ter, do poder e do parecer, o ser torna-se escravo da imagem que projeta e daquilo que pensa ser possuidor. A felicidade, imaginada nessas bases, por mais que possa ser conquistada e durar, é sempre efêmera. Pode até trazer uma ilusão momentânea de sucesso, mas basta verificar os noticiários diários e constatar que muitos que a ela se entregam nessas condições são profundamente infelizes, especialmente quando mantêm vidas vazias. Como nos ensina a Benfeitora: “há uma terrível preocupação para ser visto, fotografado, comentando, vendendo saúde, felicidade, mesmo que fictícia. A conquista desse triunfo e a falta dele produzem solidão”v.

Por conta disso, a felicidade está intimamente relacionada à maneira como encaramos a vida. Quando não incluímos em nossa pauta diária a busca do significado existencial, as ilusões ganham corpo em torno do nosso ser, e o resultado disso tudo é a ilusão, a depressão e outros tantos transtornos catalogados pela medicina. Considerando esses aspectos, conclui Joanna de Ângelisvi:

“Felicidade é conquista íntima... A felicidade não são coisas: é um estado interno, uma emoção... Portanto, se desejas ser feliz, vive, cada momento, de forma integral, reunindo as cotas de alegria, de esperança, de sonho, de bênção, num painel plenificador”.

Quando mantivermos nossa vida conectada a essa busca superior de significado, os momentos considerados infelizes serão transformados em aprendizado, e não mais como inimigos da nossa felicidade. Atentos à recomendação do Mestre, de que o Seu Reino não é deste mundovii, e às de Kardec que complementa estabelecendo que a felicidade não é deste mundoviii, construiremos os seus alicerces em nosso reino interno, na nossa psique, e fruiremos não somente da felicidade possível, mas estaremos dando passos consistentes em nossa jornada pessoal.

E contrariando a visão pessimista do pai da psicanálise, constatamos que o plano da divindade para a humanidade vai muito além da felicidade, pois na condição de Filhos de Deus estamos todos fadados à plenitude.


i Freud, Sigmund. O Mal estar da Civilização.

ii Jung, Carl Gustav. O Homem e seus símbolos.

iii Maslow, Abraham. Introdução à psicologia do ser.

iv Ângelis, Joanna de (espírito); Franco, Divaldo (médium). Autodescobrimento: uma busca interior.

v Ângelis, Joanna de (espírito); Franco, Divaldo (médium). O Homem Integral.

vi Ângelis, Joanna de (espírito); Franco, Divaldo (médium). Mensagem: Felicidade Possível.

vii Evangelho de João 18:36

viii O Evangelho Segundo o Espiritismo.

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