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Artigo do Jornal: Jornal Outubro 2016
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Dizem-nos os amigos espirituais que as leis humanas devem adequar-se ao nível evolutivo dos homens e que, portanto, serão tão mais rigorosas ou mais brandas quanto mais ou menos atrasados formos (1).

Consequentemente, inseridos nessa conturbada atualidade, não por mero acaso, mas porque este é o contexto necessário para nosso aprendizado e, acima de tudo, compreender qual deve ser o nosso papel junto à sociedade, composta por cada um de nós, papel que deverá ser o de cidadão esclarecido e de homem de bem porque um e outro são o mesmo, atuando em conformidade com a sua consciência, as leis naturais e as leis humanas.

Allan Kardec nos oferece valiosos esclarecimentos sobre a nossa atuação e a nossa responsabilidade perante nós e perante todos: “Podem aplicar-se, sem medo de errar, as leis que regem o indivíduo à família, à nação, às raças, ao conjunto dos habitantes dos mundos, os quais formam individualidades coletivas. Há as faltas do indivíduo, as da família, as da nação; e cada uma, qualquer que seja o seu caráter, se expia em virtude da mesma lei” (2).

Kardec ainda afirma que “não basta se cubra de verniz a corrupção, é necessário extirpá-la” (3) e hoje, como há já tantos séculos, é ainda com a corrupção que estamos a braços, detectando-a a cada dia com mais facilidade em todos os meios em que circulam as criaturas.

Contudo, de que nos serve simplesmente acusar, colecionar todo tipo de adjetivos contra os “descobertos” e simplesmente transferir responsabilidades, cobrar atitudes, se cada um de nós se considera apenas “vítima” e não parte integrante dessa grande massa que forma a sociedade?

A nossa doutrina também nos assegura que, no atual estágio evolutivo, “é preciso o excesso de mal para que se compreenda a necessidade do bem e das reformas” (4). Pois aí estamos, com todo tipo de “mal” circulando em todas as camadas sociais, batendo à nossa porta e nos obrigando a rever nossos conceitos, preconceitos e valores ético-fraternos pois que certamente já desenvolvemos alguns...

Muitos afirmam que a corrupção vem de cima para baixo, porém eu, depois de cuidadosa análise com base nas leis naturais (terceira parte de O Livro dos Espíritos), penso que não. Aqueles que consideramos como os “de cima”, ou seja, os que ora detêm algum tipo de poder de mando e condução de grupos e coletividades, ali não se encontram de todo o sempre, nem por sorteio, nem por acaso ou mero capricho da natureza ou de Deus... Ali chegaram vindos de “baixo”, senão nesta reencarnação, em precedentes, encontrando-se presentemente nessa posição por necessidade de prova e comprovação de conquistas morais.

Consequentemente, é de “baixo” que precisamos começar a construir o nosso arcabouço ético-moral-fraterno, que está impresso em nossa consciência (5). A corrupção não se mede pelo elevado valor desviado ou indevidamente apropriado, nem pela extensão e alcance do gesto equivocado. Corrupção é nada mais nada menos do que uma postura mental deturpada até mesmo quanto o que possamos considerar como direito adquirido.

Em nosso dia a dia, nas nossas pequenas atitudes do cotidiano, será que exercemos criteriosamente um comportamento moral? Nunca nos aproveitamos de uma oportunidade para nos furtar ao desempenho de uma tarefa que nos cabia? Ou nos omitimos diante de um posicionamento errôneo? Ou nos servimos de falsos pretextos para não comparecer a uma cerimônia que julgamos tediosa; ou, ao contrário, inventamos motivos para estar presente em atos que não nos dizem respeito?

Será que nunca nos aproveitamos da afeição de alguém para aprisioná-lo a nós, ou nunca nos aproveitamos de alguém social e economicamente fragilizado para submetê-lo aos nossos caprichos, ao nosso comodismo?

Enfim, seres inteligentes e medianamente esclarecidos que já somos, podemos avaliar desde o mais pequenino gesto, desde o pensamento mais íntimo, o nosso entendimento quanto ao que possa ser definido como corrupção – se tivermos a coragem e a vontade necessárias para evitar escapismos e desculpismos. Criaturas não cometem grandes falcatruas repentinamente; renomados usurpadores do povo e da nação não brotaram da noite para o dia; nem grandes criminosos assim surgiram.

Sabemos que somos espíritos livres e senhores de nosso livre-arbítrio, que nos cabe trabalhar nossa evolução mediante a compreensão de nossas faculdades, nossas inclinações e do potencial imenso de que somos portadores – e que, para isso, contamos com toda assessoria da espiritualidade esclarecida e protetora. Portanto, o espírita em particular não pode ficar alheio ao processo de construção de uma condição social melhor, mais igualitária e justa para todos. Agora é o momento, e nós temos a grande felicidade de ter alcançado a oportunidade de participar dessa hora de transformação e renovação moral.

 

Notas bibliográficas

(1) Kardec, Allan - O Livros dos Espíritos q.796

(2) Kardec, Allan - Obras Póstumas Questões e Problemas As Expiações Coletivas

(3) Kardec, Allan - Obras Póstumas Credo Espírita

(4) Kardec, Allan - O Livro dos Espíritos q.784

(5) Kardec, Allan - O Livro dos Espíritos q.621

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