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Artigo do Jornal: Jornal Outubro 2017

Sobre o autor

Pedro Valiati

Pedro Valiati

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Certa vez, acompanhando um colega do trabalho no almoço, via-lhe as lágrimas, tímidas, a escorrer pela face. De forma melancólica, relatava a perda recente do filho, jovem, apenas 22 anos. Estes são os momentos em que as palavras nos escapam e o coração sangra junto. Nada me pareceu mais solidário que dar-lhe um O Evangelho Segundo o Espiritismo, o qual carregava na mochila.

Aquele homem visivelmente destroçado internamente aceitou, com certo desinteresse, e começou a folhear o livro, passando rapidamente como quem altera repetidamente o canal da televisão sem realmente procurar algo, até parar em determinada página, onde parecia devorar com os olhos, lágrimas intensas a brotar. Havia chegado ao capítulo 5, item IV, “Perda de pessoas amadas e Mortes Prematuras”. Após alguns minutos, aquele homem certamente apresentava os sintomas de dor, contudo, possuía em suas mãos uma bússola, uma direção para acomodar-lhe, mesmo que minimamente, o sofrimento que não era somente dele.

Naquele momento, foi possível compreender de forma clara a lição universal do amor, a qual o Cristo veio nos ensinar: Consolar os aflitos e divulgar a mensagem.

Compreendi por que o Cristo dava o pão e pregava a palavra, pois sabia que o homem faminto deseja ter a fome saciada, mas uma vez confortado da necessidade material, estava pronto para ouvir as palavras de conforto. Saciado do corpo e do espírito, certamente sentiria novamente a fome corpórea, mas o espírito já se movimentava para a transformação do homem novo.

Após tal experiência, foi também possível compreender a profundidade da frase singela “Apascenta as minhas ovelhas” – João 21:15, em se revestindo na missão de todo aquele que já é conhecedor da mensagem cristã, independente da religião.

Contudo, tal como na casa do caminho, era necessário unir mãos físicas sob a égide das mãos espirituais em organizações do amor e da verdade cristã, por isso, a diversidade dos templos que falam em nome do Cristo, naturalmente, cada um com seus métodos e compreensão do Evangelho. Nós, espíritas, organizamo-nos nas casas espíritas com a finalidade de propagar a mensagem do Mestre e atender aos irmãos, como nós, enfermos da alma, sejam encaranados ou não.

As lições doutrinárias são a vertente para moldar, através da reflexão, o novo homem, quando este já é capaz de “andar com as próprias pernas”. Contudo, adentram-se nas instalações espíritas irmãos com o coração despedaçado, a alma cansada e a fé descomposta: São as ovelhas a serem apascentadas, são as almas a serem resgatadas das fileiras do desânimo e da melancolia, alguns, inclusive, já mergulhados no mar das tramas da obsessão e sob os efeitos depressivos.

Por mais clara que pareça a missão cristã, não é lição fácil de ser assimilada na alma, eis o porquê de muitos grupos espíritas organizarem-se em torno de questiúnculas, detalhes desimportantes que tiram o foco do atendimento integral. Discussões estéreis que não consolam almas nem transferem o bálsamo divino a contra a dor, muito menos divulgam na forma verdadeira a mensagem do Cristo. Por quê?

Alguns irmãos ainda não entendem o importante, prendendo-se exclusivamente à letra ou ainda não conseguem enfrentar de forma aberta os problemas no lar, na sociedade ou em si. Acreditam não possuir estrutura psicológica para o enfrentamento das situações, algumas verdadeiramente graves, olvidando o apoio incessante dos irmãos e amigos espirituais. Seguem detalhadamente os manuais das fugas de si, como se assim fosse possível.

Qual o interesse nas reencarnações anteriores se assim não for para comprovar a bondade divina a ofertar as tantas oportunidades necessárias para o recondicionamento do espírito? Por que especular datas e acontecimentos? Quantas lágrimas os irmãos deixarão de verter com tais informações, quão importante lhes é para a retomada da vida de forma integral?

A casa espírita e seus trabalhadores assim existem para não deixar a trilha da consolação, eis a vocação e obrigação de quaisquer templos que almejem falar como verdadeiros seguidores do Cristo, convertendo-se em verdadeiras Casas do Pai. O trabalhador do passe, por exemplo, deve se preparar adequadamente para o exercício do trabalho, o irmão do trabalho mediúnico deve comprometer-se no auxílio, sabendo que serão atendidos irmãos com dificuldades acerbas. Assim atingindo a todos, de forma que a “roda” da caridade envergue as dores do mundo.

A história e os exemplos múltiplos nos ensinam os casos infelizes nos quais os objetivos das células cristãs, espíritas ou não, foram desvidados de seus propósitos, transformando-se em templos da luxúria, vaidade, poder e misticismo, onde o interesse próprio atua sob as vestes do interesse do Cristo.

Que o Pai nos abençoe nas jornadas cristãs, para que jamais desviemos o foco do auxílio ao sofrimento e divulgação da mensagem, a qual ampara e consola milhares, incluindo a nós mesmos.

Paz a todos.

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