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Artigo do Jornal: Jornal Junho 2018
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Na Revista Espírita de 1866, em outubro, ao tratar do tema “Os Tempos

São Chegados”, Allan Kardec assegura, com base em seu bom-senso e sua lucidez, que “só o progresso moral pode assegurar a felicidade

dos homens na Terra, pondo um freio nas paixões más; somente ele

pode fazer reinar a concórdia entre eles, a paz e a fraternidade”.

 

Doris Gandres – de Teresópolis/RJ

 

Portanto, a par todo o conhecimento filosófico e científico que ela nos traz, o que deve nos preocupar em primeiro lugar são as consequências morais que esse conhecimento acarreta.

Acredito, com Kardec, que tudo se prende exatamente à questão do desenvolvimento moral do homem, aquilo que, espíritas, comumente designamos como nível evolutivo; do que compreendemos ser moral em sua integridade; do quanto e como aplicamos essa moral pura e transparente em nosso cotidiano.  Se analisarmos todos os problemas e dificuldades com isenção e imparcialidade, chegaremos certamente à conclusão de que tudo se relaciona com esse parâmetro: o grau de senso moral.

A definição de moral, à luz dos princípios espiritistas, está transcrita na resposta à q.629 de O Livro dos Espíritos – “moral é a regra da boa conduta e, portanto, da distinção entre o bem e o mal. O homem se conduz bem quando faz tudo tendo em vista o bem e para o bem de todos.”

José Herculano, em seu comentário à resposta da q.636 de O Livro dos Espíritos, ainda na edição por ele traduzida, afirma que “os sociólogos confundiram moral e costumes”; e conclui: “A moral relativa é a convencional, enquanto a moral absoluta é a ditada pela aspiração universal do bem, pela lei de Deus gravada nas consciências”.

Constata-se, efetivamente, diante dos problemas da atualidade, que, até ao presente momento, o comportamento generalizado do ser humano tem-se pautado sobretudo pelas convenções, quase sempre firmadas em função de interesses pessoais e materialistas. O homem, por medo ou comodismo, ou ainda ignorância, submeteu sua consciência a certos tipos de “coação social” a fim de não se sentir excluído ou renegado, ou mesmo apontado como tolo e otário... O que Herculano chama de “moral absoluta”, aquela que rege nossas consciências, sempre que permitimos, é ainda, para muitos de nós, de difícil aplicação. Quem de nós pode dizer-se completamente justo e imparcial em todos os aspectos da vida e em relação a todos que partilham nosso caminho...

Em todos os tempos a “coação social” exerceu-se de formas diversas: primeiramente, nas civilizações primitivas, pela força bruta; depois, civilizados, passou-se a utilizar formas mais refinadas de coação: a intelectual, a política, a econômica, e até a religiosa – esta última então poderíamos classificar como a mais covarde, porque frequentemente se firma sobre a dor, o sofrimento, o anseio da criatura de apoio e consolação, de esclarecimento e libertação.

Os segmentos coercitivos, na maioria das vezes, não hesitam em servir-se de meios duvidosos, amorais e até ilegais para atingir seus objetivos. Instalam uma forma de supremacia com base em conceitos ilusórios, artificiais e passageiros – não só do ponto de vista transcendental, mas até mesmo do terreno, visto que mais cedo ou mais tarde esses conceitos veem-se desmascarados. Só que, em muitos casos, nem se importam porque seu senso moral, ainda não desenvolvido, não os acusa claramente. Às vezes, sentem-se ligeiramente “desconfortáveis” por terem sido descobertos, não por terem praticado atos indevidos – a lógica é a de que “os fins justificam os meios”; “se eu não aproveitar outro o fará”; “todos fazem, de uma forma ou de outra”.

Deolindo Amorim, Léon Denis e Herculano Pires, entre alguns outros grandes clássicos do Espiritismo, compreenderam o cunho profundamente social da doutrina e, sem concessões ou meias palavras, trabalharam arduamente para despertar o meio e o movimento espírita quanto a essa implicação dos princípios espiritistas.

Entretanto, o apego aos velhos conceitos comodistas, o hábito milenar de postulados dominadores e posturas subservientes, o misticismo enganosamente salvacionista e o medo da assunção de responsabilidades perante si mesmo e perante os demais, lamentavelmente não permitem, ainda hoje, que esse aspecto, embora pressentido, seja encarado de forma direta e efetiva. Deolindo Amorim, em seu livro O Espiritismo e os Problemas Humanos, no Capítulo II – Entre Deus e César, afirma que “a Doutrina Espírita reprova a omissão ou o enclausuramento deliberado para fugir do mundo pois devemos participar e, assim, oferecer à sociedade nossa cota de serviço (...) O pensamento social da Doutrina ainda não foi descoberto em sua plenitude.”.

Fontes:

- Allan Kardec, Revista Espírita outubro 1866 – Os Tempos são Chegados

- Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questões 629 e 636

- Deolindo Amorim, O Espiritismo e os Problemas Humanos, cap.II – Entre Deus e César

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