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Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2018
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Em O Livro dos Espíritos, questão 806 (1), Allan Kardec pergunta aos Espíritos Superiores se a desigualdade das condições sociais é uma lei natural e eles respondem, clara e objetivamente, que não, é obra do homem.

Então nós, espíritas, mesmo sem aprofundado conhecimento doutrinário, não podemos pretender delegar a severa desigualdade das atuais condições sociais, pura e simplesmente, à lei de causa e efeito; nem pretender ignorar a nossa responsabilidade em todo esse contexto, pois sabemos que tudo se encadeia no Universo e que vimos caminhando há muito, muito tempo, fazendo e desfazendo, construindo e destruindo...

O livro Obras Póstumas (2) nos trouxe duas reflexões de Kardec de importância capital para a constituição de uma sociedade justa e fraterna: uma delas é sobre o famoso lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade, que já ilustrou inúmeras bandeiras; outra é As Aristocracias, onde, embora de forma sucinta, Kardec percorre com extrema lucidez o caminho da ânsia de poder do homem desde as eras mais primitivas.

Estudando esse capítulo, “As aristocracias”, vemos desfilar claramente a escalada dessa fome de poder do ser humano. Inicialmente, nas sociedades primitivas, o poder estava com os anciãos, os mais velhos, logo chamados patriarcas; a seguir, necessitando o homem conquistar e manter o melhor território possível, o poder foi mantido pela força; depois, e justamente como consequência da detenção da força, o poder passou a ser o do nascimento – filhos dos líderes pela força, naturalmente, deteriam o poder; com o passar do tempo, o crescimento econômico, o poder passou para as mãos de quem detinha maiores e melhores condições financeiras; mais adiante, no entanto, surge uma outra potência, a da inteligência, capaz de ascender ao poder, mesmo sem as qualidades de patriarca, da força, do nascimento ou do dinheiro, quer seja por capacidade efetiva ou por astúcias e artimanhas.

E, observando-se a vigente situação geral da humanidade, parece que presentemente estamos acumulando essas cinco condições de aquisição e manutenção de poder: ou seja, tornar-se (ilusoriamente) poderoso a qualquer custo. Claramente se percebe que não atingimos, ainda, a desejável condição social, justa e benéfica a todos – e ao que tudo indica, muito ainda falta para tal. A desigualdade das condições sociais chega a assustar, até porque sabemos que teremos de responder, de acordo com a lei universal, perante a nossa consciência e a consciência cósmica, quer seja pela nossa participação ou por nossa omissão, em dado momento da nossa trajetória evolutiva.

Contudo, em suas reflexões, Kardec nos aponta a futura situação ideal – a da aristocracia intelecto-moral. Essa será a liderança que conduzirá as coletividades com base em princípios morais que, necessariamente, culminarão na efetiva vigência da liberdade, da igualdade e da fraternidade para e entre todos.

E no capítulo cujo título é justamente esse, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, após várias considerações, o mestre espírita salienta que o princípio da Fraternidade é que facultará à humanidade o estabelecimento da igualdade e da liberdade para todos e por toda parte. Fica óbvio que sem fraternidade não seremos capazes de considerar o outro, diferente em algum aspecto, com direito à igualdade; e nem mesmo à liberdade...

Gandhi afirma que “o verdadeiro conhecimento proporciona uma posição moral e uma força moral” (3). E entendemos que o verdadeiro conhecimento é naturalmente aquele que, proporcionando essas condições morais, proporciona inclusive o poder real e uma autoridade incontestável à qual ninguém sentirá o desejo de opor-se. Sob tal comando e direção, teremos então uma sociedade onde não existirão desigualdades, a não ser as oriundas das diferentes conquistas e faculdades individuais, mas que jamais serão do nível das, hoje, lamentavelmente, ainda, existentes.

 

Fontes pesquisadas:

  1. Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, q.806
  2. Allan Kardec, Obras Póstumas, capítulos Liberdade, Igualdade, Fraternidade e As Aristocracias
  3. Livro As Palavras de Gandhi, de Richard Attenborough
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