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Valentim... Não se sabe, exatamente, onde nasceu Valentim, contudo, por ter vivido em Alexandria e ali ensinado até o ano 135, admite-se que ele haja nascido naquela cidade egípcia. No ano 136, vamos encontrá-lo em Roma, buscando conhecer melhor a igreja local. Segundo Tertuliano, Valentim tentou ser bispo cristão, entretanto, seu nome foi recusado. Frustrado com esta recusa, o gnóstico viajou para a ilha de Chipre onde veio a morrer sem se retratar  por suas doutrinas heréticas.

Considera-se Valentim a figura mais destacada do Gnosticismo de um modo geral. Mais que os outros gnósticos, Valentim possuía  um conhecimento de retórica e uma vocação natural para a arte de bem falar, o que o ajudou muito na pregação de seu sistema.  Sua doutrina chegou até nos pelas várias referências dos padres apologistas. 

Seu sistema místico - filosófico  é claramente platônico. Como o filósofo grego, ele defendia a existência de dois mundos: um visível ( correspondente platônico do mundo sensível ou dasaparências ) e o mundo invisível (análogo ao mundo platônico das idéias perfeitíssimas). A partir desta dicotomia básica, ele desenvolve uma complicada ( para não dizer confusa) para explicar a existência do Mal e, ao mesmo tempo, indicar o caminho da salvação. Vamos, em seguida, com base em Fraile[1], tentar compreender esta cosmologia.

1 - O Pleroma

Este é o conceito que serve de ponto de partida para compreender a gnose de Valentim. Por Pleroma vamos entender o  Mundo Supra celeste, reino do Espírito e da Luz. No Pleroma viovem cerca de 30 eons que se distribuem em três espaços hierarquizados : Ogdóada, Década e a Dodécada.

Ogdóada

Com esta palavra, os valentinianos  designam o mundo supra  inteligível. Desde a eternidade, existem dois princípios que imperam sobre todas as coisas : o Abismo (Bythos ) e o Silêncio (Sigé ). O abismo era o Eon perfeito (Téleios aíón ), a mônada iningendrada, incorruptível, incompreensível, ilimitada, inexpressiva e inexprimível. Em última análise, o abismo seria o Deus desconhecido ( Theos agnostos ), absolutamente transcendente e inteiramente afastado de todas as coisas.

Ao lado do Abismo existia o Silêncio. O Abismo, entretanto, vivia em extrema ociosidade. Ele, porém, era amor e o amor é uma força dinâmica, intensa que exige atuação, comunicação, por isso, o Abismo uniu-se ao silêncio, tornando-se O Pai de todas as coisas existentes. Desta união procederam  três  parelhas de eons que são :

1. Nous e Aletheia = Entendimento e Verdade.

2. Logos e Zoé = Razão e Vida.

3. Anthropos e Ecclésia ( O homem e a Igreja).

O conjunto desses eons mais o Abismo e o Silêncio formam um total de oito eons ou Ogdóada, região exemplar da Luz e do Espírito.

Em segundo lugar vem a Década que corresponde ao Mundo inteligível (kosmos nontós). A dualidade logos + zoé deu origem a cinco pares de eons ( 10 eons ), ou seja, uma década. Em seguida, o anthropos e a ecclésia  geraram seis pares de eons que formaram a dodécada. Com isto se forma um grupo de  trinta eons ( 8+10+12 = 30) que, por sua vez, formam o pleroma. Este número possui um valor simbólico já que corresponde aos trinta anos da vida  desconhecida de Jesus.O Pleroma está separado do mundo inferior que lhe é imediato por um limite (horus ) que o isola inteiramente. Entre o Pleroma e o Demiurgo, os valentinianos colocaram a Enthymésis , ( pensamento , reflexão ) ou mãe que corresponde ainda à imagem do Pai invisível que vem a ser a idéia exemplar do mundo.

O Pecado de Sofia

Para poder continuar a sua exposição  e explicar a origem do Mal, os valentinianos introduzem um novo personagem Chamado Sofia. A Sofia (Sabedoria ) forma com a Theletos (vontade) o sexto par da dodécada. A Sofia como a psyké do mito grego foi traída também pela curiosidade e desejou conhecer o mundo supra sensível e penetrar no mistério do abismo, coisa que apenas o nous pode realizar e mais ninguém. Sofia, ousadamente, tentou alcançar seu objetivo mas, ao escalar o lugar supra-celeste, caiu e só não se precipitou no vazio porque horus ( limite ) a susteve em sua queda. Para evitar que fatos como este viessem a se repetir Nous e Theletos geraram uma última parelha de eons : o Espírito Santo e Cristo cuja missão seria ensinar aos eons do pleroma a respeitar a transcendência do Abismo. Deste modo foi restabelecida a ordem no interior do pleroma.

O processo continuou e Sofia, mais uma vez surpreendendo, une- se a  ao desejo e fica grávida deste. Deste relacionamento, nasceu uma filha bastarda chamada Sofia Achamoth ( = concuspicência ). Este novo ser é uma espécie de aborto ou matéria informe e, logo assim que surgiu foi expulso do pleroma. Este fato desagradou aos demais eons que se reuniram para reintegrá-la à ordem. Para tanto, os eons   criaram um novo ser divino e cada um dos seus criadores deu à sua obra o melhor que possuíam. Dessa forma Nasceu O Jesus - Salvador. Com isto encerra-se a cadeia : logos: eons: Salvador.  O Salvador é filho imediato do conjunto dos eons do pleroma e mediatamente do logos, por isto se chama também logos, embora seu nome correto seja Jesus -Salvador. Este Jesus é acompanhado por um grupo de anjos e sua missão consiste em criar o kenoma, ou reino celeste, semelhante ao mundo superior, além dos homens psíquicos e espirituais.

2 - O Kenoma

O kenoma  ou reino celeste, forma uma região intermediária entre o mundo superior e o terrestre. Foi criado pelo Salvador que, ao fazê-lo, tomou para modelo o pleroma. Como o mundo superior, o kenoma possui também três regiões ou seções: A Ogdóada, a Hebdómada e a Hexada.

A Ogdóada

A Ogdóada, neste caso, é o reino espiritual ou pneumático ( pneuma = ar, vento, espírito), e formado do pneuma degradado. Corresponde ao oitavo céu das estrelas fixas.

Hebdómada

Este é o reino animal ( psíquico) que corresponde aos sete céus dos planetas.  À frente de cada um desses céus existe um arconte. Nesses céus se escalonam um grande número de anjos, arcanjos, tronos, dominações, deidades e reinos. A hebdómada dos anjos psíquicos  está comandada ou presidida pelo demiurgo que  outro não é senão o Yavé dos judeus, um deus ígneo e se diferencia do Abismo por ser ativo e trabalhador.  O demiurgo possui natureza psíquica e, por isso, é inferior às entidades do mundo espiritual. Não pode conhecer o pleroma do qual se encontra afastado pelo limite, nem tão pouco a hebdómada celeste que se encontra acima dele. Somente conhece a hebdómada  a qual pertence e o cosmos sensível que é sua criação.

Não é difícil reconhecer-se no  demiurgo valentiniano o demiurgo de Platonismo. A diferença encontra-se no fato de que o demiurgo de Valentim, ao contrário do demiurgo de Platão, não contempla o mundo ininteligível ( correspondente do mundo das idéias) e nem mesmo possui idéias próprias. Para criar o mundo sensível, será movido pela Sofia que funciona como uma espécie de instrumento mais ou menos inconsciente. Sofia  emprestará ao demiurgo a idéia exemplar da criação que ela, por sua vez, recebeu do logos -Salvador. O demiurgo não só ignorava a existência do mundo supraceleste como também a vinda do Salvador.

O demiurgo, depois de criar o mundo sensível, foi tomado pela vaidade e chegou a se afirmar como um verdadeiro Deus, dizendo : Eu sou o Deus e fora de mim não há outro Deus. Foi assim que ele inspirou os profetas do Antigo Testamento. Estes, entretanto, não anunciaram a vinda de Jesus porque o demiurgo não o sabia e nem Jesus precisava de tais profecias.

A Hexada

O demiurgo, movido de modo inconsciente por Sophia Achamoth e esta, por sua vez, pelo Salvador, criou o cosmo sublunar que é sensível, visível e corruptível. Se chama hexada porque o seis é o número da matéria que, segundo Philon de Alexandra, chegou à sua perfeição no sexto dia.

O cosmo sublunar possui também três regiões que são chamadas de tríade da corrupção ( Tes én phthora triados ) cujos elementos se originam nas três paixões experimentadas por Sofia Achamoth sucessivamente : tristeza, temor e consternação. Não se menciona a ignorância porque porque esta foi a paixão fundamental, origem e razão de ser das três outras.

Da tristeza, proveio o elemento aéreo que serve de morada aos anjos materiais ou demônios. À frente deles está o Princípe deste mundo, ou seja, o Kosmocrator o qual, embora seja uma criatura do demiurgo, conhece coisas que o demiurgo não conhece já que na sua constituição existem elementos da matéria espiritual.

Do temor e das lágrimas  surgiu o elemento aquoso ou hídrico que é a região própria das almas animais ou psíquicas.

Da consternação, nasceu a  terra que é  de matéria grosseira própria dos homens carnais e dos seres corpóreos (hílicos ). Irineu costumava ensinar que o elemento luminoso surgiu do riso de Sofia Achamoth.

A parir deste sistema metafísico, Valentim  explica a existência de três reinos : O Espiritual, O Psíquico ou animal e o material;  três classes de anjos : os espirituais ( satélites do Salvador ), os animais (anjos do demiurgo ) e os materiais ou demônios; por fim, há também três classes de homens : os espirituais ou pneumáticos, os animais ou psíquicos e os materiais ou hílicos.

Os elementos puros e bons do homem vêm da Sofia Achamoth. Os homens pneumáticos  (ou espirituais) foram criados sem a intervenção nem o conhecimento do demiurgo. Formam um gênero diferente que provem do Espírito Superior. Neles predomina o elemento luminoso. Estes homens especiais são os gnósticos que não necessitam da redenção. Para salvarem-se basta-lhes apenas a gnose que corresponde ao grau de conhecimento que lhe é próprio.

Os homens psíquicos ou animais possuem uma alma racional ( psiké ) cuja origem é o céu da hebdómada. Nesse tipo de homem se encontram equilibradas a matéria luminosa e a matéria escura.  Os cristãos pertencem a esta categoria e a eles corresponde o conhecimento da fé. Podem ser redimidos à medida que eliminem a parte escura de sua materialidade e se deixem  absorver pela parte luminosa.  A redenção se realiza por meio do Salvador que nasceu da Virgem Maria e que, no momento do batismo se uniu ao eon Jesus. Esteve com Jesus até o momento da paixão quando o abandonou e voltou ao pleroma.

Por fim,  colocam-se os homens hílicos ou materiais. Estes possuem alma irracional ( alogos ) cuja origem é o barro da terra do paraíso. Formam essas almas o grupo dos pagãos no qual domina a matéria e  paixões menores. Não são capazes de redenção e desaparecerão quando o mundo material desaparecer.

Um dia, o demiurgo se cansará de criar. Nesse dia, Sofia Achamoth retornará ao pleroma e cada ser voltará ao seu lugar de origem : os homens pneumátcos ( os gnósticos ) irão para o pleroma. Entretanto, esta viagem não será muito fácil  uma vez que deverão enfrentar dois obstáculos : os demônios aéreos que funcionam como juízes e dos anjos planetários ou cosmocratores. Para vencer esses obstáculos, os gnósticos costumavam, na hora de sua morte untar-se com óleo que possuía um caráter de unção e teria o poder de santificação. O demiurgo, por seu turno, ocupará o lugar deixado vago por Sofia Achamoth e junto a ele estarão os homens psíquicos que goram redimidos. O homens  hílicos, entretanto, não terão a menor chance de salvação e ficarão à espera da grande catástrofe apocalíptica quando serão destruídos com o  mundo material. Esta destruição será eterna pois não haverá o retorno cíclico das coisas.

Aqui está em geral o pensamento de Valentim. Vamos, em seguida, ver a difusão deste pensamento. A Gnose de Valentim, no século II e  princípios do III, espalhou-se amplamente recebendo adendos, muitos tão disparatados, que acabou por transformar uma teoria, já por si só complexa, em uma espécie de babel que abeirava ao grotesco. Hipólito assinalou expressamente uma divisão do Valentianismo em dois momentos: o itálico e o oriental; o primeiro tendo como corifeus Heracleon Tolomeu e Flora e o oriental, liderado por Teodoto e Bardesanes.

Heracleon é uma espécie de  exegeta desta seita. Foi ele quem traduziu e comentou o Evangelho Segundo João. Orígenes conservou diversos fragmentos deste gnóstico e, por meio deles e de outros testemunhos indiretos, ficamos sabendo que Heracleon empregava o método alegórico e que distorceu o pensamento joanino para acomodá-lo às teorias do gnosticismo.

Tolomeu foi o autor de uma epístola intitulada Flora que Ernesto Renan considerou como uma obra mestra da literatura gnóstica. Conforme Tolomeu, a Lei de Moisés não é inteiramente verdadeira ou falsa. Por este motivo não pode proceder do Deus   Pai universal que é perfeitíssimo. Também não pode proceder dos demônios pois possui algo de bom; assim só resta uma origem: o demiurgo, deus inferior e intermediário que, embora não seja de todo bom, participa relativamente da justiça.

Ainda se pode trazer à baila um certo Marcos que viveu no século II. Irineu que o deve ter conhecido o qualifica de um charlatão que exerceu a sua atividade em Lyon e nas cidades vizinhas, mesclando suas doutrinas heréticas com práticas abusivas e abjetas. Utilizando-se da matematização característica do Pitagorismo, Marcos interpretava a doutrina de Valentim por meio de uma complicada numerologia simbólica associada a figuras geométricas.

Vamos, agora, a Teodoto e ao Ramo Oriental. Conservam-se fragmentos de suas obras nos Estromata de Clemente de Alexandria. Constitui-se a sua doutrina em um conjunto de idéias valentinianas. Como Heracleon, Teodoto também tendia para a interpretação alegórica das narrativas bíblicas, acomodando-as ao Gnosticismo de Valentim.

Bardesane, em verdade Bar Daisan, nasceu em Edessa e era amigo do rei Abgar II. Na sua juventude filiou-se ao Gnosticismo de Valentim. Mas tarde, porém, converteu-se ao Cristianismo embora não deixasse inteiramente as antigas idéias que professara. Foi o escritor mais  significativo da Gnose do século III. Efrain atribui a ele  mais de 150 salmos com suas melodias. Muitos desses salmos chegaram até nós.  Existem fragmentos de seu diálogo Peri Heimarménes e hinos que foram agregados às Atas de São Tomaz; entretanto, o diálogo sobre as Leis dos países, não parece ser obra sua mas de um discípulo por nome Filipe.  Bardesanes estudou as Ciências Naturais e a Astrologia, entretanto, negou a influência dos astros na liberdade humana. Sua ênfase  à questão do bem e do mal influenciou por certo o Maniqueísmo.

[1]  Fraile Guillermo História de la Filosfia, vol. II

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