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Assim é o São João do povo, um santo forte e severo que se deve respeitar e temer.

Conta Lucas em seu evangelho que, no Templo de Jerusalém, havia um sacerdote por nome Zacarias que pertencia à classe de Abias. Zacarias era casado com Isabel que era descendente de Arão. Isabel que já estava em idade avançada não tinha filhos e isso fazia o casal muito triste. Ora se deu que, um dia em que Zacarias estava no interior do Templo, apareceu-lhe um anjo que lhe disse que, muito em breve, ele seria pai. O sacerdote mostrou-se incrédulo e o anjo, como castigo de sua incredulidade disse que ele perderia a fala durante a gravidez de sua mulher e só voltaria a falar depois que a criança nascesse. O filho seria um menino e deveria ser chamado João, que em grego se escreve  Ioannes, derivado do hebraico Yohanan que significa  Jeová tem sido gracioso.  Assim, depois que o menino nasceu e o pai recuperou o dom da palavra deram à criança o nome João.

Esse João, depois de adulto, vai viver em Bethabara do Jordão onde pregará a metanóia (mudança de espírito), a vinda do Reino de Deus e a chegada do Messias. Caráter forte e rude, vivendo asceticamente, João começa a critica com grande veemência a conduta de Herodes e de sua amante, Herodíades.  As críticas foram tantas e tão fortes que Herodes mandou prender  João e, algum tempo depois, a pedido de Salomé, filha de Herodíades mandou matá-lo por decapitação. João por ser primo de Jesus foi canonizado e a sua festa colocada no dia 23 de junho.

A data 23 de junho não possui a menor relação com João Batista. Em verdade, nesta data, festejava-se o solstício. A Europa cristã deu a essa festa um ligeiro colorido cristão, associando-a João Batista, entretanto esta festa já existia em tempos pré-cristãos. Chama-se solstício cada um dos instantes ou posições em que o sol atinge a sua maior distância angular do Equador, ou seja, quando é máximo o valor da declinação solar. Nas festas do solstício era comum acenderem-se fogueiras e isso inscreve estas festas nas chamadas festas do fogo.

Em muitos lugares eram acesas grandes fogueiras em torno da qual rapazes de moças cantavam e dançavam alegremente isto eles chamavam fogo de São João. Os camponeses acreditavam que as pessoas que saltassem por sobre a fogueira estariam livres de doenças e outros males.
Como já vimos a antiga festa do solstício era realizada com muita alegria e danças junto da fogueira e fartura de comida e bebida. Estas práticas passaram para as festas de São João, onde também se come muito, bebe-se, dança-se, canta-se e tira-se a sorte. Esta necessidade de conhecer o futuro era muito comum na Antiguidade, e normalmente era feita nos oráculos, principalmente o do Deus Apolo que era tido como o senhor da mântica, ou arte adivinhatória.

Segundo uma antiga tradição, São João passa o dia de seu aniversário dormindo e é bom que seja assim, porque, se ele estiver acordado, vendo o clarão das fogueiras acesas em sua honra, não resistirá ao desejo de descer do céu para ver a sua festa e, se isso acontecer, o mundo acabará através do fogo. Este mito aparece em uma canção popular que diz:

Capelinha de melão é de são João
É de cravo, é de rosa é de manjericão.
São João está dormindo não acorda não
Acordai. Acordai, acordai, João.
Minha mãe, quando é meu dia?
Meu filho já se passou.
Uma noite tão bonita
Minha mãe não me acordou.
Se meu São João soubesse
Quando era o seu dia,
Descia do céu à terra
Com prazer e alegria.

Havia também com o já o dissemos há pouco as praticas oraculares que pretendia saber basicamente sobre três coisas fundamentais à vida humana: o nascimento o casamento e a morte. Na noite de São João se coloca uma bacia com água e à meia - noite, olha-se dentro da bacia e se a própria figura não aparecer refletida é porque a pessoa não chegará ao ano seguinte Em uma canção popular, diz-se:

Na noite de São João
No terreiro uma bacia
Que é para ver se para o ano
Meu amor ainda me via.

O tipo de adivinhas mais comuns nas festas de São João no Brasil são as que versam sobre o casamento.  Luiz da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro no dá a receita de algumas adivinhas. Vejamos duas delas: Na noite de São João, toma-se um ramo de manjericão e passa-se na fogueira, depois, pega-se o ramo atira-se no telhado. Na amanhã seguinte, vamos ver o ramo. Se ele estiver ainda verde, o casamento será com uma pessoa jovem, mas, se murchar, será com um velho ou uma velha.

Em noite de São João, faz-se um pirão com farinha e dentro dele se coloca um caroço de milho; depois com os olhos bem fechados, divide-se o pirão em três partes e se coloca: uma na porta da rua, outra embaixo da cama e a terceira na porta do quintal.

Vai-se dormir em seguida. Se na manhã seguinte o grão de milho estiver no pedaço posto na porta da rua, é certeza de casamento próximo; se ele for encontrado sob a cama haverá casamento, mas será demorado e se o grão for encontrado no pirão colocado na porta do quintal, pode-se perder a esperança, pois não haverá casamento.

Assim é o São João do povo, um santo forte e severo que se deve respeitar e temer, ao contrário de Pedro que é um brincalhão sempre disposto à farra e à pândega. O caráter dos três santos de junho aparece em uma cançoneta junina que diz:

Com a filha de João
Antônio ia se casar
Mas Pedro fugiu com a noiva
Na hora de ir pro altar

Com ele não se brinca como se brinca com São Pedro ou Santo Antônio, pois, em verdade, ele é uma forma a divindade, ou seja, personificação do Solis Invictus que os romanos, os egípcios e os gregos adoravam. Isto não quer dizer que João Batista não tenha existido, o que se quer dizer é que, para atender necessidades da igreja nascente, ele mitologizado e associado ao sol e isto não é uma particularidade de S. João, pois aconteceu também com muitos santos da Igreja Católica.

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