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Sobre o autor

Itair Ferreira

Itair Ferreira

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Simão Pedro, o devotado discípulo, perguntou a Jesus: “Quantas vezes devo perdoar ao meu próximo, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?”. Ao que Jesus lhe respondeu: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Se multiplicarmos esses números, achamos o resultado de 490 vezes.

Chico Xavier estava atendendo as pessoas, em Uberaba, no Grupo Espírita da Prece, quando uma mulher que sofria com o marido, alcoólatra, veio até ele e lhe disse: - Chico, se eu contar as vezes que já perdoei ao meu marido nestes trinta anos de casada, dá mais de 490 vezes; sendo assim, já estou liberada! Ao que o Chico lhe respondeu: - Emmanuel está aqui, do meu lado, dizendo que “Jesus mandou perdoar setenta vezes sete, cada ofensa que venha perturbar o nosso coração”. Esse número é simbólico, significando que o perdão deve ser constante e incondicional, como ensinou o Cristo em todos os atos de Sua estada entre nós, mostrando como se faz, fazendo.

Nas estações do sofrimento, sem precisar e sem merecer, deixou-Se imolar por amor a nós, a fim de nos impulsionar ao caminho da suprema felicidade, para a qual todos fomos criados, mas não soubemos ainda entrar na posse de nossa herança divina, trocando, ao longo das nossas múltiplas existências, pelo orgulho, pelo egoísmo, pela preguiça, pelo crime, pagando, assim, o preço pelas nossas escolhas.

Emmanuel, que foi contemporâneo de Jesus, na personalidade do senador Públio Lentulus Cornelius, conta no livro Há 2000 anos..., que participou, como legado de César na Galileia, do julgamento de Jesus, a pedido do governador da Judeia, Pôncio Pilatos, e este tudo fez para livrá-lo da condenação, dando ideias, como, por exemplo, a de “substituí-lo por algum prisioneiro com processo consumado”. Porém, tudo em vão. O povo preferiu perdoar Barrabás, e, num dado momento do flagício, Polibius, um ajudante de ordens do governador, comovido com os padecimentos de Jesus, foi falar-lhe pessoalmente para que ele pedisse indulgência ao governador.

Então, Jesus afirmou que, se quisesse, “poderia invocar as legiões dos seus anjos e pulverizar toda a Jerusalém dentro de um minuto, mas que isso não estava nos desígnios divinos e, sim, a sua humilhação infamante, para que se cumprissem as determinações das Escrituras”. Terminou na cruz, sacrificado entre dois ladrões, pedindo clemência para seus algozes, sem se ofender, compreendendo a ignorância reinante: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem!”.

Perdoar em grego é aphíemi, que quer dizer desligar, soltar, libertar. Nelson Mandela, o grande estadista, ficou 27 anos preso por querer a justa distribuição dos meios de sobrevivência em sua pátria, a África do Sul, e ao ser perguntado pelos repórteres se tinha raiva dos carcereiros com quem ele teve contato durante todo o tempo de prisão, respondeu: “Não, de forma alguma. Eu queria ultrapassar aqueles muros e ficar livre. Se a raiva permanecesse em mim, eu não estaria livre, mas sim, escravizado por um sentimento mau”. (Ver o livro Os Morfeus do sonho, página 108, de minha autoria).

Não perdoar e guardar rancor é carregar um saco de lixo tóxico, prejudicando a nossa estrutura emocional e física, gerando doença num curto espaço de tempo. O Dr. Frederic Luskin, doutor em Aconselhamento Clínico e Psicologia da Saúde, pela Universidade de Stanford, nos EUA, afirmou, por meio de pesquisas, que a raiva revelou ser um risco significativo para a doença cardíaca. Num estudo fascinante com adultos que possuíam pressão arterial normal, ele constatou que cinco minutos de raiva enfraqueceram a reação imunológica dos participantes, a imunoglobulina salivar, uma medida comum da capacidade imunológica, que ficou diminuída por um período entre quatro e seis horas depois do episódio de cinco minutos de raiva.

Perdoar, em todas as línguas é doar, dar completamente. Denota totalidade, plenitude. Os prefixos per, ver e for significam para. Per doar, per donare, per donar, ver geben, for give, para dar, para doar, é o desprendimento, a liberdade de Espírito. O perdão liberta. A poetisa da Espiritualidade Superior, Maria Dolores, através de Chico Xavier, diz, em seu poema Cantiga de Perdão: “Perdoa e seguirás em liberdade, no rumo certo da felicidade”.

É necessário o treino constante do perdão, já que ofendemos e nos sentimos ofendidos. Há o ditado popular: errar é humano, perdoar é divino. Entretanto, se errar é humano, perdoar também tem que ser humano. Nós é que temos de resolver nossos problemas. Temos o hábito de dizer: - Deus que me perdoe! Mas, Deus não tem que perdoar. Ele não se ofende. O perdão está relacionado com a ofensa. Se não há ofensa, não é necessário o perdão.

Ele criou leis para regerem as nossas ações. Seremos felizes ou desgraçados, de acordo com a nossa escolha. Diz André Luiz, na psicografia de Chico Xavier, numa página intitulada nem castigo, nem perdão, que “Deus é Equidade Soberana, não castiga e nem perdoa, mas o ser consciente profere para si as sentenças de absolvição ou culpa ante as Leis Divinas. Nossa conduta é o processo, nossa consciência, o tribunal”. Deus dá a cada um, de forma igual, os meios de aprimoramento, mas “a cada um será dado de acordo com as suas obras”. Na prece dominical, conhecida como Pai Nosso, Jesus nos ensina: “Perdoa as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, ou seja: Colheremos aquilo que plantarmos. Se não perdoamos, como querer que as pessoas nos perdoem?

Outra crença popular que atrapalha a prática do perdão é a frase tão comum: Perdoar é esquecer! Ou: Quem perdoa, esquece! Lembrar e esquecer são questões mnemônicas. Se a nossa memória é saudável, não há possibilidade de esquecer nenhum acontecimento, seja ele bom, seja mau. Perdoar é enxugar o fato, retirando-lhe, do conteúdo, a energia nervosa. Ficará apenas o fato. Isso é esquecer. Quanto ao mal, não merece comentário, em tempo algum.

Muita paz!

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