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Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2014
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Nos primórdios da Humanidade, quando o homem ensaiava os primeiros passos dentro de um desenvolvimento mais amplo do espírito, seu corpo perispiritual dava os primeiros sinais, durante os momentos do sono, de que podia desprender-se, libertando-se temporariamente e de forma ainda embrionária do organismo biológico que representa o seu corpo físico.

Neste desdobramento da alma, vê-se tal como é, um ser espiritual, imortal, diante de outros seres, desencarnados, que lhe observam e dos quais ele foge amedrontado, interpretando-os como anjos dos quais não suportam a presença luminosa ou demônios que podem lhe fazer algum mal.

O tempo passa e a cada nova encarnação a experiência diária do sono lhe faculta a oportunidade de exercitar de maneira automática o desprendimento da alma. Passados tantos milênios daquela fase primária do ser humano na Terra, cada vez mais, pelo desenvolvimento que o Espírito vem alcançando, bem como pela predisposição adquirida pelo corpo físico, torna-se mais e mais comum a capacidade de projetar-se para fora do corpo, ocasionando fenômenos diversos em que o Espírito readquire a possibilidade de aurir momentos de relativa liberdade e de manifestação das suas faculdades, que permanecem restringidas pela influência da matéria mais densa.

Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita, num esforço científico de classificação, chamou esses de fenômenos de emancipação da alma, onde podemos destacar, dentre outros, o sonambulismo e o êxtase.

O desprendimento do Espírito encarnado em mais alto grau é o que se pode chamar de êxtase. A alma temporariamente liberta do corpo – segundo Kardec – permanece ligada a este por um fio (leia-se O Resumo Teórico do Sonambulismo, do Êxtase e da Dupla Vista, no capítulo VIII da segunda parte de O Livro dos Espíritos):

No estado de êxtase, o aniquilamento do corpo é quase completo. Fica-lhe somente, pode-se dizer, a vida orgânica. Sente-se que a alma se lhe acha presa unicamente por um fio, que mais um pequenino esforço quebraria sem remissão.

Daí os cuidados que se deve ter, chamando a atenção do extático para tudo que o liga ainda à Terra, a fim de que não realize o rompimento, que seria considerado suicídio, pois que proporciona ao Espírito a partida antecipada para o Mundo Espiritual. Lidando há algum tempo com esse fenômeno, às vezes ouvimos o extático dizer que gostaria de permanecer naquele local, pela suavidade e bem-estar sentidos, que ultrapassam qualquer definição pelo vocabulário terrestre.

O extático penetra os mundos espirituais compatíveis com o seu progresso e sente a felicidade que o espera no futuro. Ele compreende a importância das coisas espirituais, exalta a magnanimidade de Deus, relativiza a vida terrena, considerando as dificuldades enfrentadas como sendo recursos de desenvolvimento do ser.

François Deleuze, magnetizador do século XVIII, na sua vasta experiência com este fenômeno também teve a ocasião de observar as características do êxtase, as quais relatou no seu livro Instruções Práticas sobre o Magnetismo:

Nessa nova situação, o espírito está cheio de ideias religiosas das que talvez jamais se houvesse ocupado; vê em todas as partes a ação da Providência; esta vida só lhe parece uma viagem durante a qual devemos recolher o que nos é necessário para nossa eterna morada. A independência da alma, a liberdade do homem, a imortalidade, são para ele verdades evidentes. Está convencido de que Deus nos ouve e de que a oração é o meio mais eficaz de obter sua graça e para conseguir livrar-nos das desgraças que nos ameaçam, ou ao menos para fazê-las redundar em proveito nosso.

O texto de Deleuze segue ainda descrevendo nestes termos sobre a capacidade do indivíduo em êxtase compreender a importância da caridade e da participação divina em nossas vidas. Estas considerações do extático, de alta espiritualidade e desenvolvidas em estado de desprendimento, acabam por influenciar a sua vida de relação, provando, pelo menos para ele mesmo, a existência da alma.

Estas mesmas informações os Espíritos transmitiram a Kardec ressaltando ainda com relação às conclusões que podem ser tiradas dos fenômenos de sonambulismo e êxtase: “Aquele que os estudar de boa-fé e sem prevenções não poderá ser materialista, nem ateu.” (O Livro dos Espíritos, capítulo VIII, 2.ª parte)

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