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Hoje diretor, professor de matemática conta vivência que transformou seu olhar sobre a educação

Rurdiney Silva 02x

Como no caso de tantos outros professores, Rurdiney da Silva também acabou ingressando na docência quase por acaso. Aos poucos, foi gostando e se adaptando ao ofício. Personagem do documentário Nunca me sonharam, que retrata realidades do ensino médio brasileiro, relata ali um episódio que mudou seu olhar e sua postura como educador.
Natural de São Gabriel da Palha, cidade do noroeste do Espírito Santo com pouco mais de 36 mil habitantes e distante 202 km da capital Vitória, mudou-se ainda pequeno para Serra. Cresceu ali, na zona metropolitana de Vitória, na localidade mais povoada do estado. Cursou o médio técnico em contabilidade, sendo desde pequeno aluno de escolas públicas. Tentou vaga na escola de oficiais, não entrou. Passou no vestibular para engenharia da computação, em São Paulo, onde não conseguiu permanecer em função do alto custo de vida.
Quando voltou para Serra, era começo de junho. Um conhecido, professor de uma escola particular da cidade, tinha de fazer uma cirurgia e ficaria um mês afastado. Foi convidado a substituí-lo nas aulas de matemática. O afastamento do conhecido alongou-se até o final do ano. Nesse período, abriu o vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo em matemática. Entrou na graduação em 2001, fez licenciatura, que finalizou em 2005. Chegou a cursar algumas matérias do bacharelado, mas não terminou.
Ainda durante o curso, começou a dar aula na escola adventista de Serra, passou por cursinhos, pré-vestibulares, pré-técnico. Em 2005, prestou concurso para a Prefeitura Municipal de Serra e foi aprovado. Dois anos depois, prestou concurso para a rede estadual e tornou-se professor efetivo em ambas. Ficou na regência de classe no Estado de 2007 a 2010. Em 2010 assumiu a gestão da escola, ficou até 2016. Neste ano, assumiu a direção de outra escola estadual, a EEEF Campinho, próxima ao centro, distante 2 km da anterior, com classes de fundamental 1, 2 e ensino médio.

No episódio que você relata no filme, em que conta que foi conhecer um aluno cujo caderno sempre tinha manchas de café, você trabalhava apenas como professor?

Era só professor. Foi o período em que me efetivei no município de Serra. Foi minha primeira escola na rede municipal, em 2007, onde tinha acabado de entrar. Já tinha trabalhado contratado na rede estadual, voltado mais para o ensino médio.

Pelo que você conta, ainda não estava atento a quem eram os seus alunos, apenas ao conteúdo que deveria ser ensinado. Como foi isso?

A minha formação era puramente teórica. Na minha concepção, todo aluno deveria aprender matemática de qualquer jeito, não levava em consideração a situação sociocultural do aluno. Aquela vivência me transformou enquanto ser humano, principalmente enquanto profissional da educação e professor. Passei a conhecer uma realidade que conhecia apenas na literatura, de ler e estudar, mas não de vivenciar na prática. Ali me deparei com a situação de um aluno – na verdade, não de um, mas de vários – mas houve esse caso pontual que marcou muito a minha trajetória. [No filme, Rurdiney conta que, ao chegar à casa do estudante que sempre apresentava o caderno com manchas de café, foi recebido pela mãe do aluno, que sabia quem ele era e disse que o filho adorava suas aulas. E mostrou o espaço acanhado em que o menino fazia os exercícios de matemática, tomando café com leite]. Mas havia outros alunos que iam para a escola violentados, abusados, que não tinham estrutura familiar que desse suporte adequado para que os meninos pudessem estudar e trilhar seus sonhos vida afora.

Na formação, você passou ao largo dessas questões e de como elas impactam o dia a dia da sala de aula?

As faculdades abordam muito pouco essa questão. Hoje até já abordam mais, afinal mais de uma década se passou. Mas na época, não. Na Universidade Federal, as matérias eram muito teóricas. Mesmo me formando na licenciatura, as matérias da minha graduação foram muito rasas, nada era estudado de forma mais aprofundada. Eles faziam que você olhasse matemática não do ponto de vista do sujeito, mas de transmitir o conhecimento apenas. A minha função na sala de aula seria ensinar matemática, independentemente da condição do sujeito de aprender. Na minha equação não entrava o sujeito, apenas a transmissão do conhecimento.

Nesses anos de prática docente, o que você aprendeu e incorporou em termos de estratégias para fazer os alunos se interessarem pela matemática?

Por mais que a gente saiba que existem várias teorias de aprendizagem que abordam esses temas hoje – a minha formação acadêmica mudou muito da época em que me formei na graduação até hoje, tive a oportunidade de fazer cursos de especialização, pós-graduação, mestrado – eu percebo que, embora você queira trabalhar o conteúdo de forma isolada na sala de aula, isso é impossível. Porque o indivíduo, quando vem para a sala de aula, já vem carregado com os seus saberes, os seus conhecimentos. Não é tábula rasa. O professor na sala de aula tem de ter a destreza de usar esse conhecimento na hora de ensinar a sua disciplina. Minha visão mudou. Sou mais humano do ponto de vista de compreender o sujeito como um todo, suas limitações sociais, sua bagagem histórica. E não chegar lá e falar “pessoal, vamos lá, vou ensinar matemática, porque o resto não interessa”. O resto interessa também. O sujeito é formado pelo todo, e não só por partes.

E, falando nisso, seja em sua experiência como professor ou como diretor, você consegue trabalhar de forma integrada, formando um todo escolar?

É complexo isso. Do ponto de vista das escolas, não é algo simples. Hoje, aqui no Estado do Espírito Santo, trabalhamos o planejamento por área do conhecimento. Tentamos trabalhar os conteúdos de forma articulada uns com os outros. Buscamos os pontos de contato da matemática com a história; no ensino médio, a matemática se comunicando com a física, com a química. O grande problema para isso é a formação do professor. Por mais que às vezes queiramos interligar as disciplinas, ou nós professores não estamos preparados pedagogicamente para essa ação, ou não temos interesse em trabalhar dessa forma. Mas sempre que possível, sim. Enquanto professor, tento criar links com outras disciplinas nos conteúdos de sala de aula, e como diretor tento mostrar como é importante trabalhar de forma contextualizada e interdisciplinar.

Quais são as barreiras existentes para isso no interior da escola?

A falta de motivação. Às vezes, a pessoa está motivada para trabalhar de forma articulada com um colega, aí isso esbarra na forma de contrato dos professores. Aqui no Estado do Espírito Santo são duas formas de vínculo: ou o contrato temporário, ou o efetivo, que passou por concurso público. Muitas vezes, algumas práticas pedagógicas interessantes são realizadas em um ano e não é possível dar continuidade no ano seguinte, pois acaba o contrato do professor, ele vai para outra escola. Mas acho que a principal questão é a formação. Ainda temos muitos professores da rede pública que não tiveram a preparação para trabalhar de forma articulada, interdisciplinar. Aí pesa o interesse de cada um, de querer se aprimorar ou não.

E do ponto de vista da direção, quais são os principais desafios a serem superados no dia a dia?

Recurso financeiro e a escassez de material humano para algumas atividades importantes da escola, além da estrutura física. No que diz respeito às pessoas, hoje você faz o diagnóstico, por exemplo, de uma turma de 3º ano do ensino fundamental. Teoricamente são alunos de 8 anos de idade. Mas tem lá alunos de 9, 10 até 13 anos, que não foram alfabetizados na época correta. Aí você precisa fazer o plano de intervenção nessa sala. E falta o profissional adequado para essa intervenção. Ou a gente vê que um aluno está sendo violentado em casa, física ou intelectualmente. Você aciona a rede de contato, através do Conselho Tutelar ou do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e não tem o retorno em tempo hábil, ou nem tem o retorno. Falta à escola um profissional para fazer essa articulação. No ensino médio, o problema se repete. Temos vários alunos que avançam de série sem condição de estar no ensino médio. Chegam ao 1º ano do médio sem a bagagem adequada para concluir a etapa adequadamente, com êxito. A escola faz o diagnóstico e pensa na intervenção. E esbarra de novo na falta de pessoal para suprir as necessidades básicas desse aluno para ele ter condição de avançar. No Espírito Santo, deu-se um passo muito grande quando foi implantado o [Programa] Jovem de Futuro, uma ferramenta que não só faz o diagnóstico dessa situação, mas permite que a escola possa corrigir essas distorções que ocorrem no ensino médio.

E a burocracia do Estado, a secretaria, como é a atuação dessa instância?

Não vejo problema no sistema burocrático, desde que ele dê o retorno necessário. O problema é quando se implanta uma série de formulários a serem preenchidos, etapas a serem cumpridas, e quando você espera o retorno, não tem. O excesso de burocracia sem que haja retorno é ruim. Isso acontece não só aqui, mas no Brasil. As políticas públicas são implantadas de forma verticalizada, não são discutidas na base, com professores, famílias, escolas. Não há preocupação em discutir quais são as reais necessidades da escola. Acham que a necessidade é uma e entregam aquelas ferramentas. Mas muitas vezes a ferramenta de que a escola precisa não é aquela, é outra, talvez muito mais simples e mais barata.

E qual foi sua principal conquista como diretor?

Temos várias conquistas. Como professor, minha maior conquista foi a transformação, a mudança de olhar para a educação. Quando olho para a escola em que eu era gestor até o ano passado, a melhora dos índices e principalmente a transformação no espaço escolar. Ficamos mais de ano sem ter registro de briga, ou de agressão física no espaço escolar. Quando assumi a direção da escola em 2010, tínhamos brigas constantemente, na entrada tinha duas, no recreio mais três, outras cinco marcadas. Diminuir a violência no espaço escolar foi uma conquista significativa. Outra conquista da escola foi ter biblioteca informatizada, com scanner, com leitor biométrico, sistema de segurança. Tentar sintetizar as conquistas em uma como a mais significativa é complexo. Mas ainda apostaria na autoestima dos alunos, algo muito positivo na escola. Conseguimos valorizar isso, trabalhando alguns valores que não eram trabalhados.

Qual a sua opinião sobre a reforma do ensino médio? Ela pode ajudar a melhorar essa etapa?

O ensino médio hoje no Brasil é uma modalidade sem propósito muito claro. Não prepara nem para a faculdade, nem diretamente para o mercado. Falta foco. A reforma é muito importante para dar foco à modalidade. Sinto falta de um debate mais amplo no nível do chão de escola. Conseguimos enxergar muitos debates acontecendo no campo acadêmico, mas falta debate na escola. É claro que foi aberto para que toda a sociedade participasse, debatesse, mas percebo que os professores do ensino médio, principalmente os de escolas públicas, ou não têm tempo ou não têm interesse. Acho que quando a pessoa tem interesse ela acaba arrumando tempo, mas de certa forma faltaram tanto tempo quanto interesse para que esse profissional tivesse participado de forma efetiva do processo. Outra coisa é a estrutura das escolas. Tal como está posto, tenho dúvidas se as escolas hoje têm condição de colaborar no processo de ensino e aprendizagem. Mais do que mudar o currículo, é preciso pensar também na estrutura das nossas escolas. Será que nós, enquanto rede pública, estamos preparados para o novo currículo? Tenho algumas dúvidas ainda, o currículo precisa ser mais debatido, mas já é um avanço pensar num novo modelo após tanto tempo.
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