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O Brasil e a França estão comemorando, em 2014 e 2015, o bicentenário de nascimento de Maurice Lachâtre (1814-1900), realizando vários eventos e ações.

As comemorações do bicentenário de nascimento de Lachâtre se iniciaram com a realização do Congresso Internacional “O Bicentenário de um Desconhecido”, na Escola Normal Superior de Paris, em 12 e 13 de dezembro último, pelo professor François Gaudin, da Universidade de Rouen, na França.

O Professor François é um lexicólogo (estudioso de dicionários) mundialmente conhecido e, com apoio de diversas instituições acadêmicas francesas, homenageou Lachâtre, considerado por ele como uma das figuras mais luminosas e corajosas da França, no século XIX, realizando o referido congresso, com a participação de renomados doutores de várias partes do mundo, que, em suas exposições abordaram as diversas facetas da atuação e influência de Lachâtre na França, na Europa e no mundo, principalmente no século XIX, como editor, escritor, livreiro, empreendedor, socialista, banqueiro, livre-pensador anticlerical, enciclopedista, republicano e estudioso do magnetismo e do espiritismo.

Dentre as conferências realizadas no congresso, destacaram-se para nós, as referentes ao Lachâtre espírita, diante de uma plateia em sua maioria composta de acadêmicos sem qualquer envolvimento com o movimento espírita.

Essas conferências foram proferidas pela professora e escritora Nicole Edelman, da Universidade de Nanterre, com o tema “O editor de O Mundo Invisível”, revista espírita editada por Lachâtre, em Paris, em 1867, e também proferida por Alexandre Rocha, editor brasileiro e fundador das Publicações Lachâtre, em 1993, em Niterói, RJ, BR, hoje Instituto Lachâtre, que falou sobre o tema “Maurice Lachâtre – de editor francês a editor brasileiro”.

A conferência na íntegra pode ser vista em anexo.

É importante ressaltar a presença, no evento, de quatro descendentes de Maurice Lachâtre e, também, da senhora Irene Gootjes, tradutora de livros espíritas para o idioma francês e também do francês para o português, inclusive, os do Instituto Lachâtre.

Foi lançada, na oportunidade, uma extensa biografia de Lachâtre, escrita pelo Professor François Gaudin, que o referido Instituto lançará, em 2015 no Brasil, dando continuidade a essas comemorações.

No Brasil, o Instituto Lachâtre, hoje situado em Bragança Paulista, SP, incluindo nestas comemorações, editou em 2014, o livro “ O Espiritismo, Uma Nova Filosofia”, de autoria de Maurice Lachâtre, publicado originalmente, em 1880, na Bélgica.

O professor Gaudin esclarece, na Apresentação do referido livro, que o texto, até aqui desconhecido, se encontrava dentre um conjunto de livros anticlericais e que provavelmente não foi objeto de nenhuma edição autônoma.

A edição brasileira é precedida de uma pequena biografia do homenageado escrita pelo mesmo professor e de alguns textos ilustrativos, tendo, ao fim, uma sucinta biografia de Allan Kardec, de autoria do próprio Maurice Lachâtre e publicada originalmente no Novo Dicionário Ilustrado, de 1865.

Fortes vínculos entre Lachâtre e Kardec e o espiritismo

Como poderemos observar, a partir dos textos abaixo selecionados, retirados da referida biografia, Maurice Lachâtre teve grande relacionamento com Allan Kardec e importante participação na história inicial do espiritismo, além do Auto de fé de Barcelona.

Primeiro como sócios num empreendimento comercial de 1839 a 1842 (página 22); e depois ao publicar, de 1865 a 1870, o primeiro dicionário do mundo com verbetes espiritas, escritos pelo próprio Kardec, onde aparece também, sua sucinta biografia, escrita por Maurice; e a seguir por editar uma revista espírita, em 1867, e, em 1870, uma enciclopédia com artigos sobre o espiritismo (páginas 34 e 35):

“Sabemos também que houve a criação de uma empresa, conforme consta nos arquivos de Paris. Maurice Lachâtre fundou a “Sociedade Delachâtre e Rivail”, cuja criação foi registrada a 18 de março de 1839, com um sócio chamado Hippolyte Léon Denizard Rivail, nascido em Lyon em 1804. Este será mais conhecido, quinze anos mais tarde, sob o pseu­dônimo de Allan Kardec.

De modo que encontrar os nomes Kardec e Lachâtre associados quando o espiritismo será popularizado não terá nada de surpreendente . Esta sociedade teve por objetivo a criação de um “banco de intercâmbio”, destinado a “facilitar as transações comerciais, proporcionar novas oportunidades para o comércio e a indústria, suprir a falta de recursos monetários através da troca de qualquer tipo de produto.”

“... No final de 1864, em Paris, Maurice Lachâtre formula rapidamente uma nova versão de seu dicionário. Será o Nouveau Dictionnaire Universel (Novo Dicionário Universal), ainda publicado por liberação (por fascículos), de 1865 a 1870, pela Docks de la Librai­rie, sua nova empresa.

“... Em 1867, ele lança uma revista, Le Monde Invisible (O Mundo Invisível), dedicada ao espiritismo. Ele já havia reservado um espaço a essa corrente de pensamento no seu dicionário e contava com Allan Kardec, um dos seus redato­res.”

“... Ele cessa a publicação da revista e anuncia uma “nova obra espírita”, intitulada Encyclopédie Nationale (Enciclopédia Nacional).”

“... Em 1870 é publicada a Nouvelle Encyclopédie Nationale (Nova Enciclopédia Nacional), com uma estrutura bastante diversificada, onde foram encontrados dois artigos curtos: “O espírita li­vre- pensador” e “O espiritismo”, nos quais ele afirma o caráter social da doutrina.”

No Prefácio da edição brasileira, Alexandre Rocha, destaca essa amizade e o próximo relacionamento entre ambos, evidenciado pelas descobertas do professor Gaudin (página 54).

“... Para nós, espíritas, a pesquisa do professor Gaudin se destaca quando nos revela a amizade que uniu por largos anos Allan Kardec a Maurice Lachâtre, seja na sociedade que firmaram de 1840 a 1843; seja nos eventos que culminaram com o auto de fé de Barcelona, em 1861; ou nos textos sobre espiritismo que Kardec escreveu para o Novo dicionário universal, publicado em 1865; seja no belo texto biográfico sobre Allan Kardec que Lachâtre acrescentou ao mesmo Dicionário e que fizemos questão de incluir ao final deste volume, onde ele conclui: “tudo faz prever que, em um futuro talvez próximo, Kardec será citado como um dos reformadores do século 19” .

Esta obra, O espiritismo, Uma Nova Filosofia, é uma excelente prova desse estreito relacionamento entre o iniciador do espiritismo e seu discípulo.

A partir de textos de Allan Kardec, principalmente retirados de O Livro dos Espíritos, mas também de O que é o Espiritismo e de O livro dos Médiuns, Lachâtre assume seu papel de divulgador da doutrina espírita; recorta textos e os reorganiza, de maneira sintética, mas lógica, dando seu colorido num e noutro aspecto, mas a forma é sempre muito próxima à de Allan Kardec, o que nos deixa com a impressão de que estamos lendo o próprio Codificador.”

Lachâtre, Kardec e a reencarnação

Digno de nota é um dos textos introdutórios, Lachâtre, Kardec e a reencarnação, retirado do livro, escrito por Jean Prieur, “ Allan Kardec et Son Époque” (Allan Kardec e Sua [Epoca) a ser publicado pela mesma editora, em português, em 2015, que narra a possibilidade de Lachâtre ter sido a pessoa que tenha falado sobre reencarnação pela primeira vez, ao futuro Allan Kardec (páginas 45 e 46):

“Amigo de Allan Kardec, o livreiro-editor Maurice Lachâtre veio lhe falar da palingenesia: era o nome dado então à reencarnação.

... Dez anos mais tarde, Maurice Lachâtre converter-se-ia ao espiritismo e iria pôr ao serviço de Allan Kardec seus talentos de livreiro e de distribuidor.

... Em relação às vidas sucessivas, Lachâtre compartilhava das ideias do filósofo Jean Reynaud, que era de Lyon, como Kardec. ...

... Portanto, Maurice Lachâtre falava com entusiasmo de Jean Reynaud e tentava convencer o prof. Rivail, que resistia com todo seu cartesianismo, reforçado pela sua educação suíça-protestante. Mas, por pouco tempo.”

Lachatre, Kardec e o Auto de Fé de Barcelona

Ressaltamos, finalmente, que o próprio Lachatre, nesse seu livro, esclarece o fato de que foi ele quem remeteu a Kardec a carta relatando o Auto de Fé de Barcelona, acompanhada das cinzas e dos restos dos livros e revistas queimados (página 147).

O assunto foi tratado no artigo da Revista Espírita de novembro de 1861 “Resquícios da Idade Média – Auto de Fé das Obras Espíritas em Barcelona”, sem que Kardec tivesse informado, naquela oportunidade, quem lhe mandou o relato e as cinzas:

“As cinzas da fogueira e os restos de folhetos foram enviados no mesmo dia a Paris, em uma carta di­rigida a Allan Kardec, o autor dos livros, pelo seu amigo exilado, o condenado político.”

 

Conclusão

Esclarecemos que, de certa forma, estamos também, envolvidos nessas comemorações, na medida em que temos realizado conferencias em Portugal, Espanha, França e Brasil, com o tema “Lachâtre, Allan Kardec, o Espiritismo e o Auto de Fé de Barcelona”, aproveitando para divulgar o livro “ O Espiritismo, uma Nova Filosofia”, e que fizemos o primeiro lançamento do mesmo no Brasil, na instituição que dirigimos, O Grupo Espírita Paz, Amor e Renovação de Niterói, RJ, em outubro próximo passado.

Esperamos que a partir desses eventos e ações possamos ampliar nosso conhecimento sobre Lachâtre e identificar mais claramente sua real contribuição para a humanidade e para o espiritismo, mudando a ideia expressada no titulo do congresso realizado recentemente na França “O Bicentenário de um Desconhecido”.

Leia a segunda parte
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