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Artigo do Jornal: Jornal Maio 2013
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amazonashescules   Ele nasceu em Manaus, no dia 5 de setembro de 1912. Órfão de pai antes de nascer e da mãe aos quatro anos de idade, teve que ir viver com a tia, dona Lydia Cardoso, que lhe orientou no Espiritismo, ainda na Federação Espírita Amazonas. Portador da Hansieníese, internou-se em 1954, na Colônia de Curupaiti, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, desencarnando no dia 28 de abril de 2004, aos 91 anos de idade.

   Enquanto o seu corpo era velado pelos amigos, vizinhos e admiradores no salão do Centro Espírita Filhos de Deus, três cachorrinhos permaneceram sentados até o momento em que o seu corpo seria retirado para o sepultamento.

   Homem simples de sorriso farto, sabia receber e encantar crianças, jovens, adultos e velhos.

   A comunidade local e do movimento espírita tinha por ele respeito e admiração pela força amorosa da sua palavra, do seu estilo fraterno e do seu entusiasmo pela vida.

   Servia a todos sempre motivado pelo dever cristão, e tinha convicção dos homens sérios que pensam e creem na força da ação e a vontade do dever.

   Tive o privilegio ser seu amigo e de gozar da sua hospitalidade, convivendo no calor fraterno até mesmo na sua casa.

   Nunca ouvi uma reclamação da sua boca, bem como palavras duras e amargas. Nunca o vi sair do sério, nem deixar para depois o que podia fazer no exato momento. Quantas vezes eu o vi datilografando com a ajuda de um lápis, forçando as teclas para realizar uma mensagem na lauda. Quantas vezes eu vi ele pra cima e pra baixo movimentando a tração com os braços a sua cadeira de rodas...

   Entre tantos episódios interessantes da sua vida simples e feliz, fui visitá-lo no dia seguinte, quando dois assaltantes invadiram sua casa e um deles lhe disparou um soco no olho, que feriu a retina. E, quando disse que se tratava de um absurdo, ele, com aquele seu jeito doce, respondeu:

   - Eu merecia. Acho até que o soco foi pouco, Gilberto.

   Ele era impressionante! Nunca ouvi alguém ficar conformado com um soco na cara aos 90 anos de idade.

   Mas também, o que a gente pode esperar de homem que tem o nome Amazonas, e o sobrenome Hércules? Ufa!...

   Muitas vezes ele me telefonava para saber como eu estava passando, quantas vezes ouvia declamar trovas, poemas, poesias.

   Momento inesquecível foi quando passei um dia inteiro na Colônia Curupaiti ao lado dele, colaborando com a rotina que tinha na secretaria do Centro Espírita Filhos de Deus, e no final do dia de trabalho me convidou para beber um chá e orarmos juntos, na hora da Ave Maria.

  Da janela do quarto víamos o Sol se pôr detrás da montanha verdejante. Na cama, ele, encostado ao travesseiro, olhava na distância vendo a noite chegar. De repente, o nobre poeta, sob a inspiração divina, começou a falar das belezas dos mundos criados por Deus. Calado, apenas ouvia o amigo querido proferir palavras que brotavam uma a uma cheias de esplendor sobre aquele cenário divino.

   Mas ele agora sussurrava dizeres, que mais se pareciam aos solilóquios escritos por William Shakespeare.

   Foi quando ele me perguntou:

   - Está vendo, meu irmão, o crepúsculo da tarde dando lugar à noite?

   - Sim, estou.

   - Ele nos envolve com os seus encantos.

   - É verdade.

   - Assim adormecemos e viajamos todas as noites.

   O diálogo continuou por mais algum tempo e ele dormiu...

   No dia seguinte, o telefone tocou bem cedo. Era Jaqueline, sua filha, dizendo-me que ele havia desencarnado.

Tra jetória

   Da vida que passa em passos tão breves, só fica a graça e a doce poesia da alma que canta, em mansa alegria, a vida imortal, a vida tão pura, que ao pobre imortal parece tão dura!

   Da vida que passa, deixando um rastro, deixando um lastro, de contos e queixas, de dores e flores, de amores soberbos, de amores gentis, de gemidos profundos, de ais lamentosos, ao homem do mundo lhe resta um caminho que não é de saudade, mas lhe dá, na verdade, a posse total da Eternidade.

(de Amazonas Hércules)

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