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Artigo do Jornal: Jornal Abril 2015
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A Revista Espírita de setembro de 1859 apresenta interessante entrevista com o filósofo, ensaísta e escritor iluminista francês, François-Marie Arouet, também conhecido mundialmente como Voltaire. Ele nasceu na cidade de Paris, em 21 de novembro de 1694 e morreu, na mesma cidade, em 30 de novembro de 1778.

Durante sua vida escreveu diversos ensaios, romances, poemas e até peças de teatro. Possuía temperamento difícil e falava o que queria sobre tudo e sobre todos, a ponto de ser preso na Bastilha por cinco meses, sendo depois libertado e exilado na Inglaterra. Ao retornar à França, passou a divulgar as ideias baseadas nos pensamentos dos cientistas Isaac Newton e John Locke.

Seu temperamento era difícil e com uma língua afiada defendia as liberdades civis (de expressão, religiosa e de associação), criticou as instituições políticas da monarquia, combatendo o absolutismo, criticou também a Igreja Católica e a sua interferência no sistema político, defendia o livre comércio, contra o controle do estado na economia. Suas ideias, inclusive, influenciaram muito nos processos da Revolução Francesa e de Independência dos Estados Unidos.

Aqui, colocamos parte deste longo diálogo entre Voltaire e Wolsey, o célebre cardeal inglês do tempo de Henrique VIII, que Allan Kardec fez questão de publicar para que pudéssemos refletir melhor sobre a realidade do homem após o seu retorno à pátria espiritual:

Voltaire. - Que imensa revolução no pensamento humano ocorreu desde que deixei a Terra!

Wolsey. - Com efeito, essa infidelidade que censuráveis então, aumentou desmesuradamente desde aquela época. Não é que ela tenha maiores pretensões hoje, mas é mais profunda e mais universal, e ao menos que seja detida, ela ameaça tragar a Humanidade no materialismo, mais do que o fez durante séculos.

Voltaire. - Infidelidade em quê e contra quem? Está na lei de Deus e do homem? Pretendes me acusar de infidelidade porque não me submeti aos estreitos preconceitos de seitas que me rodeavam? É que minha alma estava a pedir uma amplidão de pensamento, um raio de luz, além das doutrinas humanas. Sim, minha alma nas trevas tinha sede de luz.

Wolsey. - Também eu não quis falar senão da infidelidade que se vos imputava, e, ah! não sabeis que muito essa imputação vos pesa ainda. Eu me permito não vos censurar, mas vos dirigir as queixas, porque vosso desprezo pelas doutrinas de hoje, em tanto que estas não eram senão materiais e inventadas pelos homens, não poderiam lesar Espíritos semelhantes ao vosso. Mas essa mesma causa que agia sobre o vosso Espírito, operava igualmente sobre outros, os quais eram muito fracos e muito pequenos para alcançarem os mesmos resultados que vós. Eis, portanto, como aquilo que, em vós, não era senão uma negação dos dogmas dos homens, se traduzia nos outros em reino de Deus. Foi dessa fonte que se espalhou, com uma rapidez assustadora, a dúvida sobre o futuro do homem. Eis também porque o homem, limitando as suas aspirações a este único mundo, caiu cada vez mais no egoísmo e no ódio ao próximo. É a causa, sim, a causa desse estado de coisas que importa procurar porque uma vez encontrada, o remédio será comparativamente fácil. Dizei-me: conheceis essa causa?

Voltaire.- Minhas opiniões, tais como foram dadas ao mundo, foram marcadas, é verdade, por um sentimento de amargura e de sátira; mas, notai bem, quando eu tinha o Espírito importunado, por assim dizer, por uma luta interior. Eu olhava a Humanidade como me sendo inferior em inteligência e em penetração; não a via senão como marionetes que poderiam ser conduzidas por todo homem dotado de uma vontade forte, e me indignava por ver essa Humanidade que se arrogava uma existência imortal, estar repleta de elementos ignóbeis. Era necessário, portanto, crer que um ser dessa espécie partira da Divindade, e que poderia, por sua medíocre mão, assenhorar-se da imortalidade? Essa lacuna entre duas existências tão desproporcionadas me chocava, e eu não podia preenchê-la. Eu não via senão o animal no homem, não o Deus.

Convidamo-vos à leitura deste diálogo na íntegra na Revista Espírita 1859. Lá, certamente, além de compreender os motivos desta confissão de Voltaire, encontraremos as razões que todo espírito sente ao ver sua própria realidade espiritual.

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