pteneofrdeites
Artigo do Jornal: Jornal Agosto 2018
Compartilhar -

Quando falamos de Espiritismo no Brasil somos devidamente impulsionados a lembrar da luminosa passagem de Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti por se tratar de uma personalidade emblemática, que de maneira vigorosa e humanista soube aplicar com generosidade a palavra do Evangelho de Jesus.

Homem sincero e simples fez da medicina um sacerdócio, onde atendia a todos que viam ao seu encontro de maneira distinta, porque acreditava no seu ofício como sendo uma tarefa redentora de amor.

Tinha tanta identificação com a medicina, que dizia em família que o médico não tem o direito de almoçar ou dormir, caso um paciente necessite de seus serviços, seja em seu consultório ou fora dele, independente da hora ou local.

Enfim, foi um homem de grande desenvoltura intelectual e moral, e, certamente, estava muito além do seu tempo, tanto que: desdobrou-se o quanto pode para fazer literatura espiritual, defender teses em medicina, atuar na política com a dignidade de um servidor público, presidir a Federação Espírita Brasileira, traduzir a primeira obra de Allan Kardec (O Livro dos Espíritos) para o português, entre outras tarefas de excelência, conforme descrevem os seus ilustres biógrafos.

Para tanto, buscamos na obra literária do notável artista Francisco Acquarone, em seu livro ¨Bezerra de Menezes, o médico dos pobres¨, uma singela passagem que nos levará a reflexão em torno dessa alma querida em seus últimos instantes de vida na Terra.

Diz Francisco Acquarone, com extrema precisão dos fatos:

- Ciente do fim que se aproximava inexorável, o ¨médico dos pobres¨ passeava o olhar manso pelo aposento pobre onde seu espírito sofria, de maneira atroz, durante quatro meses.

Naquele olhar onde luziam os derradeiros lampejos de esmeralda, traduzia ele o anseio descomedido do seu espírito para o vôo eterno, nos espaços. É que ele sentia a angustia dos que o cercavam: de seus parentes, de seus amigos, de seus consulentes. Queria falar-lhes e não podia.

E o seu sofrimento avultava com isto. O desencarne afigurava-se-lhe uma verdadeira libertação.

Livre da paralisia que lhe tolhia a língua e roubava a fala, seu espírito poderia então comunicar-se livremente com toda aquela gente.

Os conselhos de consolo, de conforto moral que pretendia dizer, só então poderiam ser ditos. Por isso mesmo, mudo e estarrecido, Bezerra, no seu intimo, esperava esse momento, menos pela vontade de se ver livre das dores físicas do que pelo desejo de prosseguir, espiritualmente, na missão que lhe fora outorgada por Deus.

Era, pois, com desusada ansiedade que erguia o pensamento para o alto.

E do alto desceu a graça suprema...

Bezerra de Menezes faleceu às onze e meia, sem um estertor, sem uma contração.

No dia seguinte, seu corpo foi sepultado no cemitério de São Francisco Xavier, às 2 horas da tarde; e, no dia 13, ¨O País¨, jornal que fora para ele uma verdadeira tribuna doutrinaria, descrevendo-lhe o traspasse, inicia assim o longo noticiário:

¨Revestiam-se de uma solenidade augusta as derradeiras homenagens ontem prestadas a este eminente brasileiro. Desde que se divulgou a noticia do seu falecimento, até uma parte do dia de ontem, uma incessante romaria se estabeleceu em demanda da sua habitação.

¨Eram os pobres, os humildes e necessitados, no anonimato da sua condição, que lhe iam render o tributo da saudade e do reconhecimento, conquistados a golpes de bondade, e cujos soluços e lamentações se confundiam com os da pobre família desolada¨.

Nada mais justo do que esse registro do noticiário. A família de Bezerra de Menezes ficou realmente, em situação desoladora. O chefe nada lhe deixara, como recursos material.

Legara-lhe, contudo, o nome, esse nome que é um verdadeiro estalão moral pelo qual se poderão aferir as mais lídimas expressões da Bondade, da Sabedoria, do Altruísmo e do Amor à Humanidade.

No dia 17 de abril, seis dias após o desencarne do ¨Médico dos Pobres¨, alguns amigos se reuniram em uma sala exígua, à rua do Rosário, 141, e se entenderam sobre a melhor maneira de amparar a família.

A essa reunião, promovida por Leopoldo Cirne, compareceram 80 pessoas e para chefe dessa comissão foi aclamado o nome do senador Quintino Bocaiuva.

Assim, Deus acolhe os seus trabalhadores sinceros, oferecendo o socorro imediato, em detrimento dos esforços dispensados em seu nome.

Compartilhar
Topo Cron Job Iniciado