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Artigo do Jornal: Jornal Setembro 2013

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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     Manhã de terça-feira. Sentada no meu carro, estacionado próximo à entrada de um colégio de classe média alta, eu espero por uma amiga, quando vejo um carro parar bem à minha frente. No seu interior, uma cena me comove: um jovem aparentando 14 anos se despede do pai com um beijo no rosto que, em troca, beija-lhe a testa. Em seguida, abre a porta e caminha em direção ao portão da escola, a alguns passos dali. O pai ainda lhe acena enquanto põe o carro em movimento e segue. Assim que desaparece na esquina, o jovem para, olha para os lados certificando-se de que ele se foi, e rapidamente retorna, falando ao telefone, e toma a direção oposta. Seu olhar furtivo e sua maneira rápida de se esquivar me suscitam indagações: o que o levou a isto? Seria a primeira vez? Para onde estaria indo? Como seria, de fato, sua relação com o pai?

     Em rodas de conversa tenho ouvido mães relatarem que foram transformadas em meras motoristas de seus filhos, sem direito a um cumprimento, um sorriso, um beijo; mães que por eles são repreendidas quando se atrasam para pegá-los. Por isso, ver aquela demonstração de afeto entre pai e filho me chamara a atenção. Não poderia imaginar o que veria a seguir.

     Casos como este nos levam a refletir sobre a forma como as famílias estão tratando a questão da liberdade e da responsabilidade junto a seus filhos.

     Em todos os tempos a juventude sempre se viu às voltas com a questão de ceder ou resistir às más ideias. Estudos recentes de neurociências comprovam que as áreas do cérebro responsáveis pela capacidade de controlar a impulsividade e de antecipar as consequências dos próprios atos estão entre as últimas a amadurecer, o que explica a dificuldade que a criança e o jovem têm para dominar os seus impulsos e desejos. Mas se temos que prepará-los para viver em sociedade, é preciso ajudá-los nessa conquista. Sabemos que deixada a seu bel-prazer, a criança usa o seu livre-arbítrio para fazer somente aquilo que lhe agrada. Como na vida em sociedade temos deveres a cumprir, é preciso ensiná-la a fazer as escolhas corretas, educando-a para a prática da ética e da moralidade.

     Kardec, ao tratar da Lei de Liberdade, em O Livro dos Espíritos, afirma que todos temos a faculdade de ceder ou resistir aos arrastamentos a que voluntariamente estamos submetidos e que cabe aos pais, pela educação, ajudar os filhos a se fortalecerem moralmente a fim de resistirem ao mal.

     É importante lembrar que em situações envolvendo a autoridade moral paterna poderá haver, por parte dos filhos, outras lições aprendidas que os pais sequer suspeitam. Por exemplo: em comum acordo uma regra foi estabelecida. Em um determinado momento, o filho não quer acatá-la. Reclama e briga, ou faz beicinho e implora. O pai ou a mãe, então, cede e o deixa realizar aquilo que deseja. Nesta hora o filho aprendeu que regras não são para serem seguidas e que os pais são suscetíveis de cederem às suas reações.

     Aquele jovem que burlou a confiança do pai nos faz pensar na forma como vem se dando a educação na atualidade. Às vezes, por muito amarem os filhos, os genitores se colocam na posição de igualdade com os mesmos, abdicando do seu papel de guias e orientadores, que de fato são perante Deus.

     Vejo muitos pais aflitos diante do dilema entre amar e corrigir, como se fossem atos antagônicos. Regras, corrigendas e recompensas podem, sim, estar somadas a afeto, desde que estejam em função do desejo de ajudar aqueles que reencarnaram por seu intermédio a progredir espiritualmente.

     O ideal é que fossem estabelecidas, desde a infância, relações de amor e confiança entre pais e filhos, criando um campo fértil no qual a semeadura dos valores morais encontrasse solo propício para a sua brotação. A vida moderna nos dá mil ensejos de mostrar à criança como estamos todos sujeitos a leis, regras e convenções que precisam ser cumpridas sob pena de nos submetermos a algum tipo de sanção. Assim também deveria ser dentro do lar, dosando firmeza e amor.

     Sobre o papel dos pais, Joanna de Ângelis, no livro Leis Morais da Vida, afirma que, no longo processo da aquisição dos valores ético-espirituais de que necessitam os filhos, devem estar presentes o diálogo franco, a solidariedade, a indulgência e a energia moral. E acrescenta que dar-lhes liberdade de ação, cobrando responsabilidade pelos seus atos é uma forma de ajudá-los, desde cedo, a discernir entre o que se deve, convém e se pode realizar. Uma maneira de transformá-los em homens de bem.

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