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Artigo do Jornal: Jornal Dezembro 2013

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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     Ela acalentara o sonho de retornar ao seu rincão natal – uma pacata cidade na serra, no interior do estado – depois de aposentada, e foi com muita alegria que o viu se tornar realidade. Juntamente com o marido, adquirira uma grande área e ali construíra uma bela e confortável residência.

     Os anos se passaram. Formados e encaminhados na vida, cada um dos seus três filhos tomou seu rumo, constituindo suas próprias famílias. Só restou o casal. Foram anos de intensa felicidade. Vivia em paz e harmonia. Esta só foi quebrada quando a morte arrebatou o seu companheiro. Dias de tristeza e solidão. Buscando reagir, decidiu transformar aquele ninho vazio em um local de acolhimento para outras pessoas. Transformou sua casa em uma pousada.

     Foi lá que a conhecemos. Sempre solícita e com um astral elevado, nos deixou tão à vontade que tínhamos a sensação de estar em visita a uma velha amiga.

     Chegamos à tardinha e, meia hora mais tarde, já preparara um chá que ela mesma fez questão de nos servir em um terraço florido. Sentou-se conosco, mantendo uma animada conversa.

     De repente, pede licença para nos mostrar uma pessoa especial. Sai e volta com uma criancinha nos braços.

     — Quem é? – perguntamos.

     —Agora é minha filha – nos responde, informando tratar-se de um bebê abandonado pela mãe e que ela adotara há alguns meses.

     A partir de então, com seu jeito alegre e natural de ser, vai nos contando uma história das mais comoventes que temos ouvido.

     Sua menininha, apesar de parecer um bebê de poucos meses, na verdade já passara de um ano de idade, o que podia ser comprovado pela quantidade de dentinhos que já portava.

     A mãe biológica era usuária de drogas e assim que percebeu ter a sua garotinha graves anomalias congênitas – comprometimento na boca e nos membros – a rejeitou, deixando-a na UTI de um hospital público no Rio de Janeiro. Nunca mais voltou para buscá-la.

     Os problemas físicos da garotinha eram de tal ordem que precisou ser submetida a procedimentos médicos muito invasivos, como traqueostomia para poder respirar e gastrostomia para conseguir se alimentar. Para minorar seus sofrimentos e facilitar o trabalho da enfermagem, vivia sedada. Esse quadro, é claro, retardou todo o seu desenvolvimento.

     Condoída com a situação da criança, uma das pediatras encarregadas da UTI, ao constatar que ela teria alta e, consequentemente, seria encaminhada para um abrigo, sentiu-se profundamente incomodada. Tendo acompanhado, por meses, o seu tratamento, sabia que a manutenção da sua saúde dependeria de cuidados extremos que somente alguém que se dedicasse integralmente a ela poderia dar. Foi então que pensou na própria mãe. Conhecendo o seu bondoso coração, não teve dúvidas em lhe pedir ajuda.

     Tudo isto nos foi contado naquela tarde, em que pudemos ouvir da nossa anfitriã o desfecho.

     — Cheguei ao quarto do hospital, olhei para a garotinha e lhe falei: “Oi, minha queridinha, então é você que está precisando de ajuda?” Nesta hora, vi escorrerem duas lágrimas dos seus olhos. Então, não tive dúvida. Com o coração acelerado, disse: “Não chore, porque eu vou te levar comigo”.

     A partir desse momento, tomou todas as providências legais para a adoção, ao mesmo tempo em que se capacitava junto à equipe médica para assumir os cuidados com a saúde da criança.

     O que mais chamou a nossa atenção em todo este caso foi a naturalidade e bom humor com que a nova mãe se desincumbe das incontáveis tarefas diárias demandadas pela filhinha e a maneira tranquila com que aborda a via crucis de cirurgias e tratamentos que ela terá que enfrentar. O amor de mãe se revela em cada gesto, em cada detalhe. É visível o carinho que tem pela menina. E esta, a seu modo, parece entender, retribuindo com um sorriso.

     Confesso que naquela noite foi difícil conciliar o sono. Não parava de pensar no significado de tudo aquilo. Que laços seriam aqueles que uniam tão fortemente aquelas almas?

     Enquanto procurava explicações, me veio à mente a certeza de que as leis de Deus se faziam presentes naquela história. Não tive dúvida de que estava diante de uma relação selada pelo mandamento maior: o amor.

     Fossem quais fossem as razões que as aproximaram, havia ali um sentimento iluminado partindo de uma alma tocada pela compaixão.

     Esta bela lição de vida é um convite para que reflitamos sobre os gestos de amor que estamos distribuindo ao longo das nossas vidas.

     “Toda e qualquer expressão de amor oferecida aos irmãos viventes, torna-se gotas de luz em nosso caminho penumbroso, que ficará assinalado pelas nossas pegadas rumo ao grande Foco, que é o Mestre dos desvalidos e desafortunados, sempre aguardando-nos...” (Palavras do espírito Francisco de Assis, inseridas no livro Amanhecer de uma nova era, de Philomeno de Miranda, psicografado por Divaldo Franco).

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