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Artigo do Jornal: Jornal Março 2014

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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CORREIO EDUCAÇÃO

A viagem na barca Rio-Niterói naquela tarde fresca de outono transcorria tranquila. O céu muito azul, tendo ao fundo o Pão de Açúcar, inspirou a conversa com a jovem ao meu lado. Aparentava vinte anos. Falávamos amenidades, quando me surpreendi ao saber que tinha 22 anos e já era casada há cinco. Como me atraem as histórias de vida, aproveitei aquele pequeno convívio para ouvir a sua. Puxando assunto, indaguei sobre o que a fez optar por se casar tão cedo. E a resposta foi clara: curiosidade e desejo de sair da vigilância da mãe.

Continuando a conversa, passou a descrever suas relações parentais. Ao contrário da mãe, sempre exigente quanto aos aspectos morais, o pai era o que se pode chamar de uma mente aberta. Foi dele a iniciativa de entabular uma conversa objetiva e esclarecedora a respeito de sexo. Ela acabara de completar 13 anos. Sem esconder informações, expôs-lhe os perigos que corria acerca do mau uso da sexualidade. Falou-lhe dos impulsos que sentiria e de como isso repercutira no seu corpo, levando-a a buscar parceiros. Desceu a detalhes, abordando, inclusive, o uso de preservativos. Atitude sensata, sem dúvida.

O curioso neste caso foi o fato de ter sido o pai, e não a mãe, o autor dos esclarecimentos. Causou-me espanto, porém, o final da conversa entre pai e filha, que ela mesma fez questão de pontuar: ele lhe dissera que seria livre para fazer, a partir dali, o que quisesse, mas que as responsabilidades sobre os seus atos recairiam sobre si mesma.

Com tal liberdade, conheceu tudo o que quis, sem limites. Entediada, depois de cinco anos, decidiu se casar “para ver como é que era”. Hoje lamenta a juventude perdida.

Terminada a viagem, ela se foi, deixando-me mergulhada em profundas reflexões acerca do uso da sexualidade em meninas em plena puberdade.

O livro Vida e Sexo , de Emmanuel, é certamente uma obra espírita de referência acerca desse assunto. Nele, vamos encontrar, por exemplo, que “... o homem é impelido naturalmente a carregar o fardo dos estímulos sexuais, muita vez destrambelhados, que lhe enxameiam no sentimento, reclamando educação e sublimação.” E mais: que nesse terreno a criança necessita de providências e previdências, ou seja, de educação.

Analisando a atitude daquele pai à luz do que nos ensina o benfeitor, percebemos profunda divergência de visão.

Baseado na certeza de que somos herdeiros do nosso passado, Emmanuel enfatiza que a maioria de nós ainda carrega as marcas da sexualidade “destrambelhada”, necessitando correção que, no seu entender, se concretiza sob a forma de providências e previdências. Atentando para essas duas palavras, não podemos negar que o pai providenciou o esclarecimento na hora que considerou certa, e preveniu a filha dos perigos que rondam a sexualidade mal direcionada. Mas, ao fazê-lo, se eximiu das responsabilidades para com os possíveis erros da filha.

Será justo jogar sobre os ombros ainda tão frágeis, sobre uma mente em formação, uma responsabilidade desse quilate?

A ciência nos afirma que o cérebro humano atinge seu amadurecimento completo somente por volta dos 20 anos, época que, segundo a Doutrina Espírita, o caráter real e individual do espírito ressurge com toda força (Q. 385, O Livro dos Espíritos ). Significa dizer que muitas das nossas funções mentais, como a capacidade de controlar os impulsos, de postergar recompensas e de assumir responsabilidade irão se manifestar em plenitude somente a partir dessa idade.

Ou seja, jovens no início da adolescência ainda necessitam de orientação e cuidados de alguém mais maduro e experiente que lhe diga como proceder, o que não se coaduna com a liberdade total, muito menos com a transferência de responsabilidades dos pais para os filhos.

Uma coisa é cobrar responsabilidade por atos que são compatíveis com o nível de amadurecimento, capacidade e compreensão da criança e do jovem. Outra, bem diferente, é proceder desta forma diante de situações para as quais eles ainda estão imaturos. No caso em tela, a imaturidade é patente em várias esferas, principalmente nas física e emocional.

Quando Santo Agostinho, em O Evangelho segundo o Espiritismo aborda a questão da responsabilidade dos pais sobre os filhos, traz uma bela alegoria que deveria ficar impregnada em nossas mentes. Lembrando a figura do jardineiro que, diante de uma plantinha tenra amarra-a com uma guia forte, ele nos incita a fazermos o mesmo com aqueles que ainda dependem dos nossos cuidados e orientações. Esta é, sem dúvida, uma forma de lhe externar o nosso amor e fortalecê-los para os embates da vida.

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