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Artigo do Jornal: Jornal Junho 2015

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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Meados da década de 1969. Recife ainda mantinha seus bairros residenciais, de casas amplas e ajardinadas, onde os quintais faziam a alegria da garotada. Fred e seus irmãos, filhos de um funcionário público, viviam os dias da infância sob o olhar atento da mãe, professora primária. Tempos de folguedos e de aprendizados, como o caso do caroço de manga.

Deliciosa, o menino acabava de chupar a fruta, quando ouviu a mãe dizer: “Meu filho, lave bem este caroço e vá plantá-lo no quintal”. A ordem prontamente aceita traria consequências inimagináveis naquele momento: além do plantio, seria necessário cuidar daquela mangueira, tornando-se responsável por ela – molhar, limpar à volta, adubar para que crescesse forte e sadia.

Durante anos, ele cumpriu a sua parte, enquanto a Mãe Natureza tratava de fazer a dela. E quando a mangueira começou a dar os primeiros frutos, já encontrou não mais um menino, mas um rapazinho em plena adolescência que adorava se deliciar com as “suas” mangas.

A mãe, cumprindo seu papel de educadora, não se cansava de pontuar a lição aprendida: saber que, nesta vida, para se colher os frutos há que semear e cuidar da plantinha, com paciência e perseverança.

Zelosos, os pais envidaram todos os esforços para que os filhos estudassem em bons colégios. A recompensa não tardou. Com apenas 18 anos Fred ingressava no curso de engenharia em uma conceituada universidade.

Alicerçado nos valores morais recebidos no lar, estudioso e responsável, ele começou uma carreira brilhante que o alçou, em menos de 15 anos, a diretor presidente de uma das maiores empresas de construção civil do país.

Conhecer sua história foi, para mim, a confirmação do valor da semente bem plantada e cuidada com dedicação. Hoje, com a sua própria família constituída, segue o modelo de educação deixado por seus pais e a forma como encara a paternidade é exemplo a ser seguido.

Vivemos um momento de profunda transformação na família. Uma injunção de fatores tem levado a um distanciamento dos seus membros, a mudanças nos modos de relacionamento e, sobretudo, a uma modificação nos valores tradicionais. E nesse cenário, aquele pai de família mantém hábitos já quase esquecidos.

Como a provar que ainda é possível manter laços amorosos com os filhos em plena era tecnológica, aquele executivo, cujos compromissos o levam para viagens semanais, para reuniões constantes e jornadas extenuantes de trabalho, encontra tempo para reunir os filhos em torno da mesa de jantar. Naquela hora, não há aparelhos ligados nem dispersões. Ali só há lugar para as conversas olho no olho. Pai, mãe e irmãos conversam, compartilhando alegrias e tristezas, contando casos, confessando sonhos, ouvindo conselhos.

E, a cada manhã, ao sair, é o amigo que abraça os filhos demoradamente, dizendo-lhes palavras de confiança e de amor.

Mas é também aquele pai que faz questão de mostrar a realidade da vida; que dá limites e faz cobranças; aponta erros e exige responsabilidades.

Filhos de pais abastados ignoram, frequentemente, que aquilo que ora desfrutam é resultado de muito trabalho, esforço, renúncia e determinação por parte dos pais. Estudos recentes de sociologia têm apontado a existência de um “fosso geracional” que está se interpondo entre pais e filhos. Ou seja, as novas gerações infantis estão cada vez mais afastadas da geração adulta imediata. Os membros da família estão deixando de lado as narrativas sobre histórias de vida, como se o passado não contasse.

Mas o menino Fred ainda se faz presente nas memórias daquela família. Lá estão os exemplos vividos na infância e as lições aprendidas com a mãe professora, como aulas vivas dos valores que valem a pena cultivar. Como a história da sua mangueira.

Casos como esse nos fazem refletir sobre os rumos que a instituição familiar está tomando ao se afastar de certos valores morais que são fundamentais na formação do homem de bem. Muitos pais, assumindo uma postura individualista e hedonista, preocupados mais em viver o dia presente, em aproveitar a vida, evitando qualquer tipo de aborrecimento ou preocupação, vão deixando de cumprir a missão que assumiram ao receber os filhos que Deus os confiou. No entanto, há atos tão simples e providências tão fáceis de serem adotadas – como no exemplo aqui citado – que podem fazer grande diferença na formação dos filhos. Por isso, incitamos aos pais que anseiam por dar conta, de forma efetiva, compromisso assumido diante do Criador, que se inspirem no exemplo desse pai. Esta seria, sem dúvida, uma forma de colaborar para a evolução dos seus filhos, ao mesmo tempo em que estariam ajudando ao progresso da própria humanidade.

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