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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2017

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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Perceber-se como o centro do mundo e desejar toda a atenção dos adultos para si é um sentimento que predomina na maioria das crianças nos seus primeiros anos de vida. Nada mais natural, portanto, que elas reajam com cenas de ciúmes à chegada de um bebê que venha tomar o seu lugar.

Sofia ainda não tinha completado três anos quando seu irmãozinho chegou. Mesmo tendo sido preparada psicologicamente pelos pais, foi-lhe difícil controlar suas emoções, intercalando momentos de ternura e carinho para com o bebê, com choros e birras quando alguém dava mais atenção a ele do que a ela.

Quando o bebê começou a engatinhar e a interagir com as pessoas à sua volta, as oscilações comportamentais da menina se mostraram mais fortes. Ora ele era o parceirinho para as brincadeiras, ora uma ameaça: estava ganhando muito destaque, o que a contrariava profundamente. Nessas horas, as cenas de ciúmes eram tão intensas que exigiam a intervenção da mãe que procurava, com firmeza, mostrar-lhe que estava agindo de forma errada.

Foi neste contexto que se passou um episódio que me foi narrado por sua avó. Tendo ido visitar a família que se encontrava em uma capital distante, chegando o momento da partida, a mãe de Sofia pediu-lhe que arrumasse uma mala com todas as roupinhas e sapatos que já não cabiam mais na menina, e os doassem para crianças carentes.

E assim foi feito. Quando a mala já estava quase pronta, a menininha chegou. Sem entender por que suas coisas estavam sendo retiradas do armário e transferidas para aquela mala, olhou espantada, com cara de poucos amigos. A avó, com a sabedoria conferida pelos anos, foi logo explicando: São roupinhas e calçados que não dão mais em você, mas que podem servir para as criancinhas pobres, que não têm o que vestir e que andam descalças. Seguiu-se uma explicação de como vivem as crianças a quem aquelas peças se destinavam. Sofia ouviu atentamente e, sem pestanejar, saiu correndo para voltar, em seguida, trazendo nos braços alguns sapatinhos e sandálias, oferecendo-os para que a avó os levasse, também. Todos novos, ainda em uso.

Eis um belo exemplo de como se ensina a criança a amar os seus semelhantes. Nesse caso, a força da explicação da avó foi a pedra de toque no despertar desse sentimento. 

Crianças precisam entender as coisas e situações ao seu redor, conhecer como as pessoas vivem, o que pensam e sentem; saber que há muitas pessoas que passam privação e dificuldades. É importante que ela ouça narrativas familiares, histórias de cunho moral elevado, relatos de casos reais, e observe bons exemplos. Sempre que possível, os adultos com quem convivem deveriam aproveitar as oportunidades mostradas nos veículos de comunicação para esclarecer e tocar a sua sensibilidade diante da dor do próximo. Nós nos tornamos pessoas melhores quando compreendemos a dor do outro. Se para algumas crianças a empatia e a compaixão são processos naturais, para a maioria não o é. Esses sentimentos são potências da alma que precisam de ajuda para desabrocharem plenamente.

Tal processo é facilitado quando, no aconchego do próprio lar, há espaço para o diálogo, com predomínio do espírito de equilíbrio e consideração recíproca entre os membros da família. Como vimos, é natural o surgimento de rivalidade entre irmãos, no entanto, pais atenciosos cuidam para que tais sentimentos cedam lugar à amizade e ao companheirismo. Irmãos são aquelas pessoas com as quais treinamos a viver em sociedade. Sementes de amor bem plantadas em seus corações farão com que percorram a estrada da vida sempre conectados, estando perto ou longe.

É verdade que há, em muitos núcleos familiares, alguns espíritos que para ali vieram para realizar resgastes dolorosos, para o burilamento de sentimentos hostis, para reajustes com desafetos do passado ou para enfrentar outras tantas dificuldades pessoais que interferem no bom relacionamento com os parceiros de jornada. Em tais situações, devemos sempre ter em mente que o amor é a melhor forma de diluir tais dificuldades, superando toda e qualquer barreira que porventura surja no seio da família. Apresentar as lições do Evangelho do Mestre Jesus, desde cedo, às crianças é colaborar para que compreenda e passe a aceitar aquele companheiro em desequilíbrio.

Em qualquer situação do dia a dia, haverá sempre oportunidade de fazer a criança perceber e vivenciar esse sentimento que nos aproxima do Pai, que é o amor.

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