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Artigo do Jornal: Jornal Março 2017

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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Martinha, Angelina e Erlon frequentavam quinzenalmente nossos encontros de evangelização. A mãe já havia nos explicado que adotara a guarda compartilhada dos filhos com o ex-marido. Sendo espírita e zelando pela educação moral dos pequenos, fazia questão de, no seu dia, levá-los ao Centro Espírita, permanecendo, ela própria, na instituição, participando dos estudos no Grupo de Pais que ocorria no mesmo horário.

E aquela mãe fazia a diferença quando ia. Suas falas e argumentações enriqueciam as trocas interpessoais. Também os filhos eram muito participativos. Nos sábados em que estavam presentes faziam a alegria dos colegas e educadores. Certo dia, perguntei-lhe se não haveria possibilidade de solicitar ao pai que trouxesse os meninos, no seu dia. A resposta, em tom de lamento, não deu margem a dúvidas: ele já se negara várias vezes a fazê-lo. E não era por falta de insistência. Erlon, de apenas cinco anos, quase o arrastava em direção ao Centro, encontrando sempre resistência.

Durante quase todo o ano, tal situação se manteve inalterada. Por isso, fomos todos apanhados de surpresa quando vimos o menino chegar, trazendo o pai pela mão, acompanhado das irmãzinhas. Olhos brilhantes, sorriso de vitória, como a nos dizer: “Consegui!”

Na condição de coordenadora, coube a mim recebê-lo, o que fiz com imensa alegria.

Apresentado ao grupo, ele manifestou certo desconforto inicial. Mas como todos ali sabiam da importância daquele momento para a família, não tardou a se mostrar mais à vontade, em função da acolhida recebida. Estimulado a participar, falou da sua experiência de ser um “pai de final de semana”, gerando interessantes reflexões.

Dali em diante a situação mudou. Trazia as crianças no seu dia de guarda, participando dos estudos com os pais. E quando um contratempo surgia, não impedia a mãe de levá-las para a Evangelização, indo ao encontro delas, mais tarde.

Esse caso me marcou profundamente. Sou uma árdua defensora da implantação de Grupos de Pais nos Centros Espíritas. A experiência tem comprovado quão importantes são aqueles momentos em que os genitores ou responsáveis se reúnem objetivando a autoeducação e formação moral dos seus filhos.

Apesar de os modos de atuação não serem padronizados, o que se observa, na maioria das vezes, são os responsáveis pela família discutindo temas educacionais à luz da Doutrina Espírita e que, aos poucos, vão ampliando a compreensão do seu papel em relação ao adiantamento moral dos espíritos que lhes foram encaminhados por Deus.

Infelizmente, em muitas instituições que oferecem a evangelização espírita infantil, há grandes parcelas de mães (elas são a maioria nos grupos de pais) que levam a criança até à porta e vão se dedicar a outros afazeres. Excetuando-se as que necessitam trabalhar nos horários dos encontros, tal atitude não faz muito sentido. Saber o que é oferecido ali, como é feito o trabalho, como a criança interage com os demais colegas e educadores é o mínimo que se poderia esperar de pais ou responsáveis cuidadosos.

Participar do Grupo de Pais é também uma maneira de oferecer informações e subsídios sobre a família, que serão levados pelo coordenador aos educadores, visando a uma melhor adequação dos conteúdos aos educandos; é favorecer uma melhor percepção dos traços de personalidade e das necessidades de burilamento de cada um daqueles espíritos ali matriculados, momentaneamente, no seu estágio infantil.

O motivo alegado por muitos daqueles que voltam da porta é o fato de a família professar outra religião. São atraídos para o Centro Espírita por questões materiais, como por exemplo, o recebimento de bolsas de alimento. O que talvez não percebem é que, assim agindo, estão prejudicando a criança, que é apresentada, simultaneamente, a duas orientações religiosas, muitas vezes díspares nas suas fundamentações. Podemos imaginar a gama de conflitos cognitivos que surgem em função dessa dualidade.

Creio ser dever do coordenador esclarecer em que consiste a tarefa da evangelização espírita, chamando a atenção para os malefícios dessa prática tão equivocada, de levar os filhos ora aqui, ora ali.

Portanto, para preservar a saúde mental e espiritual da criança, entendo que o problema deve ser encarado com extrema lucidez. Quem leva uma criança até às portas do Centro Espírita, deveria ser o primeiro a transpô-la, participando ativamente e de forma coletiva com o trabalho em prol da infância que ali é feito. Quem assim procede, aceitando este convite de compartilhar com os filhos esses momentos de enriquecimento pessoal percebe quantos benefícios resultam desses encontros. São frutos abençoados cuja colheita se espalhará pela vida afora.

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