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Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2017

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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Há muito eu ansiava por conhecê-la. Por isso, mal pude acreditar quando, em uma feira beneficente, uma amiga me acenou dizendo: “Venha aqui! Quero lhe apresentar Berenice Piana”. A visão daquela bela mulher, esguia e de olhar doce e firme, com os braços abertos para me receber, causou-me uma verdadeira emoção. Nome nacionalmente reconhecido e festejado em todo o País por ser aquela mãe que enfrentou todos os obstáculos para aprovar a Lei Federal que garante os direitos da pessoa autista, ali estava, convidando-me para conversar. Sentado em um banco próximo, seu filho Dayan, um jovem de 23 anos, olhava fixamente para um objeto em suas mãos. Ele faz parte de uma estatística que só faz crescer em nível mundial e autista.

       O Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou Autismo é um distúrbio do desenvolvimento caracterizado por três sinais e sintomas específicos: dificuldades de interação social, problemas de comunicação e comportamentos repetitivos e restritos. A apresentação destes sintomas varia intensamente entre os portadores.

De uns tempos para cá, o tema da inclusão passou a fazer parte das pautas de reivindicações dos pais de crianças com o TEA, chegando a várias esferas da sociedade, notadamente à escola de educação formal e mais timidamente às casas espíritas. E Berenice Piana tem um papel fundamental nesse movimento.

Como mãe de uma criança autista, pôde sentir o quanto elas eram vítimas de discriminação e preconceito, agravados pela ausência de políticas públicas voltadas para esse segmento por parte dos órgãos governamentais. Esse quadro tão cruel a fez alimentar um sonho: criar uma lei federal que garantisse o direito de todos os autistas no nosso País. Corajosamente, ela enfrentou as mais complexas e desafiadoras barreiras para realizá-lo.

Como mãe, percebeu que a dor e o desamparo que sentia era compartilhado por outros pais, o que a levou a constituir uma rede em defesa daqueles direitos. E foi assim que, em 2012, apoiada por seus pares, conseguiu que fosse sancionada a Lei 12.764, considerada o primeiro caso de sucesso brasileiro de legislação participativa. A cada novo obstáculo que surgia – e foram inúmeros – ela apelava para seus apoiadores que abarrotavam os correios eletrônicos dos políticos, cobrando-lhes uma atitude em favor da causa.

O projeto aprovado passou a garantir que todo autista tem direito à vida digna, à integridade física e moral, ao livre desenvolvimento da personalidade, à segurança e ao lazer; o acesso a ações e serviços de saúde, com vistas à atenção integral às suas necessidades de saúde; o acesso à educação e ao ensino profissionalizante, à moradia, inclusive à residência protegida; ao mercado de trabalho; à previdência social e à assistência social.

Nas conversas que travamos a partir daquele dia, essa mulher extraordinária tem demonstrado o quanto os princípios espíritas sustentam seus ideais e guiam seus passos. Com uma compreensão ampliada do sentido da vida e das leis que fazem com que se aproximem, como pais e filhos, espíritos com problemáticas como a do autismo, encontra forças para levantar a bandeira em defesa daqueles que apresentam esse transtorno.

Como a admiro quando a vejo enfrentar tantas frentes de ação ao mesmo tempo: fazer valer os direitos garantidos pela Lei; responder aos inúmeros apelos da mídia ávida por uma palavra abalizada a respeita do TEA; dirigir a clínica-escola pública, para autistas, em Itaboraí, pioneira no País; cuidar amorosamente do Dayan e, sobretudo, ser a voz que clama contra a discriminação e preconceito que ainda hoje imperam em grandes segmentos da nossa sociedade.

Ignorando o verdadeiro problema que se esconde por trás de comportamentos de crianças autistas, muitas pessoas as tacham de birrentas, mal-educadas e sem limites. Alguns pais chegam mesmo a impedir seus filhos de se aproximarem de crianças autistas, deixando-as à margem nas brincadeiras, na escola, nos parques.

Como estudiosos da doutrina codificada por Allan Kardec, temos tido esclarecimentos de que se tratam de espíritos em processos de resgates de faltas comedidas em vidas passadas, renascendo com as deficiências necessárias para o seu refazimento e reequilíbrio.

Independente do grau de severidade do transtorno do espectro autista, a recomendação de Berenice Piana, citando Hermínio Miranda em Autismo: uma leitura espiritual, é: “Se você não consegue tratar do seu filho autista, pelo menos ame-o com todas as suas forças, de toda a sua alma e de todo o seu coração”. É essa a mensagem que ela deixa por onde passa, da qual ela própria é um exemplo vivo.

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