pteneofrdeites
Artigo do Jornal: Jornal Março 2018

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
Compartilhar -

Uma evangelizadora espírita me telefona aflita. Queria saber como abordar o suicídio em suas aulas. O motivo me deixou perplexa: uma menina de dez anos, da sua turma, estava com ideias de se matar em função das brigas diárias que mantinha com sua mãe. Revoltada e sem saber como enfrentar a situação, começava a alimentar tais pensamentos.

Embora não seja regra o suicídio em crianças, o fato é que sua incidência em jovens vem aumentando de forma alarmante nos últimos anos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é da ordem de 800 mil o número de pessoas que tiram a própria vida, a cada ano, o que corresponde a uma morte a cada 40 segundos. Afirma, ainda, que o autoextermínio é a segunda causa de morte entre a população de 15 a 29 anos.

O tema do suicídio vem ganhando espaço e visibilidade na mídia mundial. Especialistas alertam que o suicídio pode ser evitado na maioria das vezes e atribui-se à depressão a sua principal causa. E mais: que essa, quando associada ao abuso de álcool e de substâncias químicas, pode aumentar, em muito, a chance de alguém eliminar a própria vida.

Em relação ao adolescente, precisamos saber que os problemas de saúde mental são as doenças crônicas que os afetam em larga escala; que a depressão, nessa fase, pode ser identificada e tratada e que o tema do suicídio deve, sim, ser abordado com adolescentes, de forma séria e responsável. Essas são recomendações do Dr. Pedro Pan, um especialista na área.

Em recente pesquisa (2017) por ele realizada, como parte de um projeto que congrega cientistas da USP, UNIFESP e UFRGS – O Projeto Conexão – ficou evidenciada uma forte ligação que há entre certas alterações existentes em determinadas áreas do cérebro de crianças e o aparecimento de depressão na adolescência. Ele examinou, durante três anos, um grupo de 675 crianças com idades entre 6 e 12 anos para chegar a esse resultado. Essa importante descoberta confere um grande peso ao fator genético da depressão.1

E mais, permite que, uma vez detectada tal alteração, sejam tomadas medidas preventivas. Sabe-se que há, nesses casos, uma vulnerabilidade maior ao suicídio.

Essa vulnerabilidade, que começa na infância, pode ser ampliada se a eles vierem se somar eventos adversos, como rejeição materna, abuso psicológico, físico e sexual, entre outros.

Sabemos que, do ponto de vista espiritual, a individualidade que cada um de nós é manifestada em sua verdadeira natureza entre quinze e vinte anos (O Livro dos Espíritos, questão 385, de Allan Kardec). Nessa fase não é raro que espíritos cobradores – aqueles que se sentiram prejudicados em algum ponto da sua trajetória passada por alguém que agora se encontra reencarnado como um jovem – se transformem em severos obsessores. Desejando se vingar, atuam sobre sua mente, induzindo-o, sob múltiplas formas, ao suicídio.

A questão é por demais complexa e reclama medidas de largo alcance, como encaminhamento ao tratamento psicoterápico e espiritual e apoio familiar, mudança de hábitos e medicação. Estima-se que cerca de 60% dos que estão em crise, pensando em se matar, respondem ao tratamento agudo com psicoterapia e/ou medicação.

Nunca é demais ficar alerta diante de jovens que manifestam muita tristeza, irritabilidade, perda de prazer em atividades, alterações no apetite e no sono, perda de energia ou pensamentos negativos sobre si mesmo. Outros comportamentos também devem nos chamar a atenção, como sentimento de culpa, rejeição, dificuldade de raciocínio, concentração, indecisão, pensamentos sobre morte ou cultivo de pensamentos ruins. Tudo isso deve levantar um sinal de alerta para os pais, educadores e amigos.

E a quem está de fora os especialistas recomendam ouvir, não julgar, não doutrinar e nem minimizar as queixas. Também se deve evitar dizer: “ah, é assim mesmo, isso vai passar, é uma fase”. Ao contrário, a melhor atitude deve ser a de valorizar a queixa e oferecer ajuda. Em caso de bullying, comunicar à instituição onde ele está se acontecendo.

   E do ponto de vista espiritual, o encaminhamento para um atendimento fraterno, acompanhado de passes e fluidoterapia é sempre recomendado.

   O conhecimento desse tema e das formas de atuar frente a crianças e jovens que alimentam a ideia de fugir da vida são, no momento, fundamentais a todos os educadores, entre eles, os evangelizadores espíritas. Nenhuma reencarnação deve ser perdida e para isso é sempre oportuno valorizar a vida.


1 http://inpd.org.br/?noticias=estudo-inedito-pode-ajudar-a-identificar-depressao-precocemente-em-jovens
Compartilhar
Topo Cron Job Iniciado