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Artigo do Jornal: Jornal Junho 2018

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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“Para aqueles que pensam sobre o estado atual da nossa educação, é tristíssimo o quadro que todos os dias se nos apresenta à vista. A educação da mocidade continua cada vez mais descurada. [...] Na ignorância das coisas mais essenciais às grandes leis da vida, desfazem-se laços de solidariedade que devem unir os seres humanos e conduzi-los para um fim comum. [...] É por isso que os caracteres vão se abatendo, a venalidade cresce, a corrupção se avoluma como uma onda de perdição”.

 

Essas palavras, que nos soam tão familiares nos dias atuais, foram ditas em 1901 pela educadora Anália Franco. Na ocasião, ela pronunciava seu discurso na inauguração da Associação Feminina Beneficente e Instrutiva do Estado de São Paulo (AFBI), por ela criada, cujo principal objetivo era tentar, “pela educação das classes desvalidas, pobres e abandonadas, regenerar uma grande parte da sociedade”.

Anália Franco (1853 –1919) foi uma das mais notáveis personalidades no cenário paulista, nas décadas iniciais do século passado. Tendo ingressado no magistério ainda muito jovem, fez da educação seu ideal de vida. Coração sensível e espírito destemido, posicionou-se, nos anos febris do final do século XIX, como uma ardente defensora do regime republicano e da abolição da escravatura, o que a levou a se colocar ao lado das crianças negras, pobres e órfãs, oferecendo-lhes amparo e educação.

Educadora, feminista, escritora, jornalista, Anália Franco se destacou por seu intenso trabalho junto aos desprotegidos e desvalidos.

A AFBI abrigou inúmeros projetos no campo educacional, tanto na capital quanto no interior do Estado de São Paulo. Acreditando que “conceber o bem não basta, é preciso fazê-lo frutificar!”, dedicou sua vida à prática da caridade e ao amor ao próximo. Nos anos que sucederam à criação da AFBI, a educadora não parou de criar escolas para crianças com idade   a partir de dois anos, asilos para amparar crianças órfãs e mulheres desprezadas pela sociedade, cursos profissionalizantes para jovens, cursos noturnos de alfabetização de adultos, curso de preparação para o magistério, entre tantas outras iniciativas.

Outra faceta importante da educadora era a atenção constante com a emancipação feminina através do binômio educação e trabalho, o que a levou a abrir, também, um albergue diurno, além de asilos e creches destinados a acolher as crianças no período em que suas mães estavam trabalhando.

Vale ressaltar que, ao contrário do que se praticava na época, seus educandários ofereciam acesso indiscriminado a crianças, independente da sua condição social, cor e credo, congregando em suas classes meninos e meninas.

Nesse recorte que pretendemos fazer, queremos destacar a sua preocupação com a liberdade e autonomia dos educandos, mediante algumas práticas que iam além da mera instrução.

Com uma apurada visão de futuro e demonstrando ser uma excelente gestora, Anália Franco criou uma tipografia, oficinas de costura, de flores e chapéus, permitindo, assim, que os alunos e alunas adquirissem uma profissão. A tipografia servia a toda uma gama de trabalhos internos, além de oferecer serviços externos, permitindo a entrada de recursos financeiros. As mercadorias produzidas pelas alunas eram vendidas em bazares próprios da AFBI e a renda era destinada à manutenção dos seus projetos educacionais.

Numa fazenda, que adquiriu dez anos depois de fundada a Associação, implantou um setor agrícola que permitia associar a iniciação ao trabalho para os jovens de ambos os sexos, à obtenção de meios de sustentabilidade dos seus educandários (Colônia Regeneradora).

Nada expressa melhor o pensamento dessa admirável educadora do que suas palavras: “Quero também repetir-lhes que a caridade não é só aquela que acolhe o desprotegido, mas a que lhe dá independência. Agasalha-o, sim, mas também lhe incute a confiança em seu potencial e valores próprios”. No seu entender, a caridade verdadeira é aquela que faz do educando um elemento construtivo no grupo social, e não um “parasita a recolher migalhas que sobram dos que possuem em excesso”. Seu principal objetivo como educadora era “formar cidadãos úteis, com iniciativa e capacidade, prontos a colaborar, nunca a pedir”.

Contando com o apoio da sociedade civil, da maçonaria e de grupos espíritas, além de subvenções públicas, a obra de Anália Franco contava com cerca de 110 escolas, entre asilos, creches, escolas maternais, liceus femininos e a colônia regeneradora, além de escola de música, uma banda feminina e um grupo de teatro quando ela desencarnou.

Seu exemplo de educadora à frente do seu tempo é um espelho no qual deveríamos nos mirar nesses tempos conturbados que estamos vivendo.

As citações encontram-se no livro Anália Franco: a grande dama da educação brasileira, de Eduardo Carvalho Monteiro.  São Paulo: Madras, 2004.

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