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Artigo do Jornal: Jornal Setembro 2018

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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“O racismo é uma atitude estúpida do ser humano. É como se ele tivesse decidido parar de evoluir.” Quem assim se expressa é Gustavo Gomes da Silva, um menino de 11 anos, em uma entrevista para uma emissora de televisão. Sua fala bem articulada e a lógica dos seus argumentos contra o racismo ganharam destaque nas plataformas digitais, geraram outras entrevistas e culminaram com um importante laurel: o Prêmio Cidadão São Paulo de 2015 – Criança que faz a diferença. Nos registros de diferentes sites e vídeos, sobressaem as referências sobre a forma como emocionou a todos que o ouviram.

Também fiquei impressionada com a maturidade demonstrada por Gustavo nessas mídias. Um espírito evoluído e equilibrado, sem dúvida. Na escola, foi vítima de bullying desde pequeno, sem nunca ter compreendido os motivos que levavam seus colegas a menosprezá- lo. Mas foi também no ambiente escolar que conheceu as lendas e contos africanos que, segundo afirma, lhes ensinaram a ser “humilde, forte e a respeitar os outros, assim, como a gente deve ser”.1

É interessante destacar que suas explicações são objetivas e tocam pontos cruciais. Trata, por exemplo, da interdependência que deve existir na sociedade e da importância de se mostrar para o mundo que todos precisamos uns dos outros. E, diante de qualquer pessoa preconceituosa, esclarece que gosta de aprender cada vez mais “não para debater com ela, mas mostrar como que é ser negro” e, então, tentar fazê-la compreender como você se vê. Aos seus olhos, somos todos iguais e merecedores de respeito.

Mas há, nas suas falas, duas passagens que nos fazem relembrar as palavras de Kardec acerca da nova geração. “Você saber pedir, saber respeitar não é ser fraco. Ser fraco é você não pedir, não respeitar, não ajudar para não parecer fraco. Isso é ser fraco. Nunca é bom ser arrogante com as pessoas, nunca é bom tentar debater com a pessoa para deixá-la no chão, você tem que fazer a pessoa ver o seu ponto de vista.” Isso é fantástico! Debater ideias, sem humilhar a quem quer que seja e nunca ser arrogante, tentar fazer com que o contendor compreenda o seu ponto de vista não são entendimentos próprios de quem mal havia saído da infância.

E a outra opinião que mostra o quanto veio preparado para colaborar com a melhoria da nossa sociedade é exatamente quando ele diz que quem é racista decidiu parar de evoluir.

Aprendemos com o Espiritismo que a reencarnação visa o progresso intelecto-moral do ser humano. São as novas aprendizagens que nos impulsionam a avançar. Ideias errôneas são ultrapassadas, dando lugar a novas concepções. Crenças e valores podem, no entanto, se manter estagnados, dificultando o referido progresso.

Na linha de argumentação do jovenzinho, percebe-se esse raciocínio quando afirma que o mundo mudou, a tecnologia faz seus avanços em todas as áreas do saber, a ciência comprova que fisicamente somos todos iguais, exceção feita à cor da pele e de alguns traços externos. Então, não reconhecer a igualdade entre os homens é não somente uma atitude à qual ele classifica de “estúpida”, mas uma decisão de não evoluir. Perfeita a conclusão!

Como espírita, temos um argumento a mais, baseado na pluralidade das existências. Se para a nossa caminhada espiritual necessitamos renascer em diferentes condições físicas, socioeconômicas e culturais, viver em corpos com as mais diferentes características físicas é a regra. O negro pobre de hoje pode ter sido o branco rico de ontem. Ou mulher oriental, índia pele-vermelha, esquimó, faraó egípcio ou ter nascido em qualquer outra situação. Assim sendo, nada justifica o preconceito. Somos todos filhos do mesmo Pai e, como tal, dignos de respeito.

De onde tirou aquelas ideias tão avançadas o nosso personagem? Teria sido somente dos contos e lendas africanas? Não o sabemos. O fato é que nós, adultos do século XXI, nos surpreendemos ao verificar que espíritos da geração nova estão chegando trazendo uma bagagem de valores que nos fazem repensar o nosso cotidiano. No dizer do Codificador, eles estarão aptos a secundar o movimento regenerador da Terra (A Gênese, Cap. XVIII).  

 

 


1 - 

2 - https://www.geledes.org.br/gustavo-gomes-da-silva-10-anos-fruto-do-orgulho-racial-e-da-luta-contra-a-intolerancia/

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