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Artigo do Jornal: Jornal Maio 2018

Sobre o autor

Leonardo Vizeu

Leonardo Vizeu

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Em episódio recente, ao sair com minha filha Clara, de nove anos, da aula de evangelização cujo tema foi Deus, minha infante indagou-me: “Pai, o que Deus quer de nós?” Diante de uma indagação tão singela, porém tão complexa, lembrei-me de uma lição que aprendi com minha avó e matriarca de nossa família, Bernardina Vizeu, quando era mais novo: “Em um mundo de provas e expiações, não encarnamos para sermos felizes, encarnamos para sermos fortes!” O ensinamento de minha avó acompanhou-me durante toda minha vida.

Anos mais tarde, estudando O Livro dos Espíritos, deparei-me com o item IV da Introdução da obra, que nos ensina “que o Forte e o Poderoso devem amparo e proteção ao Fraco, porquanto transgride a Lei de Deus aquele ‘que abusa da força e do poder para oprimir o seu semelhante’”. Mais adiante, na questão 807: “Que se deve pensar dos que abusam da superioridade de suas posições sociais, para, em proveito próprio, oprimir os fracos? Merecem anátema! Ai deles! Serão, a seu turno, oprimidos: renascerão numa existência em que terão de sofrer tudo o que tiverem feito sofrer aos outros.”, e na questão 820: “A fraqueza física da mulher não a coloca naturalmente sob a dependência do homem? Deus a uns deu a força, para protegerem o fraco e não para o escravizarem”. Assim, por meio da lição do Espírito da Verdade, entendi qual o verdadeiro sentido da força e da coragem. Respondi a minha filha: “Deus quer que, antes de tudo, sejamos fortes e corajosos!” Mais uma vez, fui indagado: “O que é ser forte e corajoso para Deus?” Respondi, sem vacilar: “Ser forte e corajoso, para Deus, é sempre dizer a verdade, é sempre ajudar o próximo, é sempre fazer a coisa certa e ser bondoso!” Seguimos o trajeto de volta para casa conversando sobre a aula de evangelho. No mundo de provas e expiações em que vivemos, a autoridade dos homens, dado o seu grau de inferioridade, é imposta pela força física.

Aliás, nas lições de Max Weber, intelectual alemão, considerado o pai da sociologia moderna, a autoridade do Estado se consubstancia no monopólio do uso legítimo da violência física para que o Poder Público imponha sua vontade de forma cogente aos cidadãos1. Nosso grau de inferioridade moral nos faz confundir a força com a violência. Se pararmos para uma breve reflexão histórica, a evolução do ser humano é marcada de episódios de violência: 1) a religião judaico-cristã é criada a partir de um ato fratricida, quando Caim mata seu irmão Abel; 2) Jesus Cristo foi traído por seus seguidores e condenado à morte por crucificação; 3) a Igreja Cristã, após ser incorporada pelo Império Romano, desvirtuou-se de seus objetivos; 4) as lutas sociais e políticas foram marcadas por conflitos sangrentos que, até hoje, fazem parte de nosso cotidiano.

Este cenário distópico, que tanto nos desampara e desanima, igualmente foi objeto de questionamento por parte de Kardec ao Espírito da Verdade: “784. Bastante grande é a perversidade do homem. Não parece que, pelo menos do ponto de vista moral, ele, em vez de avançar, caminha aos recuos? Enganas-te. Observa bem o conjunto e verás que o homem se adianta, pois que melhor compreende o que é mal, e vai dia a dia reprimindo os abusos. Faz-se mister que o mal chegue ao excesso, para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas”. Outrossim, a própria visão de Max Weber sobre violência física como meio legítimo de se impor autoridade política encontra-se igualmente explicada pelo Espírito da Verdade: “795. Qual a causa da instabilidade das leis humanas? Nas épocas de barbaria, são os mais fortes que fazem as leis e eles as fizeram para si. À proporção que os homens foram compreendendo melhor a justiça, indispensável se tornou a modificação delas. (...)”

Assim, resta claro que, para o verdadeiro cristão, a força de sua autoridade tem que derivar única e exclusivamente de sua moral, baseada na observância plena da lei divina e imutável de justiça, amor e caridade, nunca de atos de violência e uso abusivo de sua vontade. Isto porque a autoridade moral é irresistível, conforme lição da questão 274 d’O Livro dos Espíritos: “Da existência de diferentes ordens de Espíritos, resulta para estes alguma hierarquia de poderes? Há entre eles subordinação e autoridade? Muito grande. Os Espíritos têm uns sobre os outros a autoridade correspondente ao grau de superioridade que hajam alcançado, autoridade que eles exercem por um ascendente moral irresistível”. a) “Podem os Espíritos inferiores subtrair-se à autoridade dos que lhes são superiores? Eu disse: irresistível”. Chegará um dia em que, para o Direito, a justiça será uma questão de ordem meramente moral, não um sistema de reparação do mal feito ao próximo. Nesse dia, poderei responder para minha filha: “Deus quer que sejamos felizes!”. Por enquanto, até que esse tempo chegue, Deus quer que sejamos moralmente fortes para resistirmos ao apelo do mal e às tentações dos vícios.


1 Vide, WEBER, Max. Política como vocação.

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