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Ensinava sem cobrar. Conversava por toda a parte: no mercado, nas estradas, com seus amigos, com os estrangeiros. E aquilo que ensinava não era algo imediatamente utilizável. Procurava excitar os espíritos, fazer com que desconfiassem de si mesmos, inspirar-lhes o desprezo da falsa ciência, daquela que consiste em fórmulas prontas. Queria trazer as inteligências para essa convicção de que uma opinião que não é acompanhada por suas razões não é válida, não tem valor.” (Henri Bergson, Curso sobre a filosofia grega)

Encontramos a raiz do comportamento pedagógico de Denizard Rivail na pedagogia do diálogo inaugurada pelo filósofo Sócrates, que representa o momento mais importante do processo de conscientização do indivíduo por meio da educação, cuja influência socrática acompanhou toda a sua vida.

De Rivail a Kardec, jamais faltou a noção da importância das perguntas decisivas no processo de construção do conhecimento. Os textos pedagógicos de Rivail são revestidos de questionamentos e, em O Livro dos Espíritos, obra que inaugura a Doutrina Espírita, o debate original com a metafísica só foi possível por causa das perguntas elaboradas.

No século V a.C, nós temos o período de maior prestígio cultural, econômico e político de Atenas, uma expressiva cidade grega que havia sido criada no século X a.C em homenagem à chamada deusa Atena. Vale ressaltar que não havia o país Grécia, mas, sim, várias pólis ou sociedades políticas (baseadas na oralidade), que passaram a interagir, de forma mais intensa, oscilando aproximações e conflitos. Pode-se dizer que disputavam mais do que dialogavam e, apenas quando o inimigo externo era muito forte (como no caso do Império Persa), se organizavam para evitar a invasão da região.

Num século que ficou conhecido como o século de Péricles, um conhecido líder e estratego ateniense, emerge num ambiente esplendoroso (e até arrogante) a figura simples de Sócrates, que nasceu em (470-399 a.C), filho de Fenareta, uma conhecida parteira da cidade de Atenas, e Sofronisco, um conhecido escultor da mesma cidade. Dessa herança, o pensador grego disse ter se tornado um parteiro de ideias e um escultor do aperfeiçoamento humano. Sócrates representa, na história da Filosofia, duas mudanças importantes: o eixo geográfico e temático.

No período anterior, no chamado pré-socrático, apesar de sua grande importância, as discussões filosóficas giravam em torno da filosofia da physis (natureza-processo ou forma). Os filósofos pré-socráticos ou antessocráticos, como queria o filósofo francês Henri Bergson, buscavam a chamada arché, a substância primeira de todas as coisas (ou as buscavam, caso de Empédocles de Agrigento, nos elementos físicos - com a exceção de Parmênides de Eléia). Não é por outra razão que Platão, depois, vai chamá-lo de grande Parmênides.

Sócrates tinha uma vida simples e jamais aceitou recompensa de ninguém. Dizia estar mais próximo do divino por ter o mínimo de necessidades. Segundo Diógenes Laertius, Sócrates na convivência com Xantipa, dizia aprender a ajustar-se às pessoas. Pierre Hadod, a respeito de Sócrates e de seu agir com cuidado, pondera:

“O cuidado de si é, portanto, indissoluvelmente cuidado da cidade e cuidado dos outros, como se vê pelo exemplo do próprio Sócrates, cuja razão de viver é ocupar-se com os outros.” (HADOT, 2008: p.67)

Sócrates foi acusado injustamente de corromper a juventude e de não acreditar nos vários deuses da Grécia, por Ânito (artífice e político), Lícon (retórico) e Mêleto (poeta). Vale destacar, também, a influência das críticas que Sócrates recebeu do comediante Aristófanes, algo admitido pelo próprio Sócrates no livro escrito por Platão, Apologia de Sócrates . Esse pensador tinha um amigo chamado Xenofonte, o qual, segundo nos relata Platão, após consultar um conhecido oráculo da cidade de Delfos, teria descoberto pela mensagem do dito Deus Apolo que, de todos os homens que viviam na Terra, Sócrates era o mais sábio. Como fiel amigo, Xenofonte contou a Sócrates o que tinha acabado de descobrir. Sócrates, de posse de novo conhecimento, decidiu fazer uma pesquisa na cidade de Atenas, com todos os cidadãos que se julgavam importantes e descobriu que a maior parte se apresentava com o verniz da hipocrisia. Daí, compreendeu que o verdadeiro sábio é aquele que sabe que nada sabe, e esse conhecimento iria dar direção a toda a sua atividade filosófica e pedagógica, método que partia do pressuposto de que todos os seres humanos traziam em seu interior potencialidades a serem desenvolvidas (caso do escravo no diálogo Mênon); portanto, algo que inclusive já foi comprovado nos dias atuais pelos estudos sérios realizados em várias áreas do conhecimento.

A partir de perguntas feitas com uma ironia refinada, própria de quem educa, Sócrates conduzia seus condiscípulos de dentro para fora, buscando sempre fazer desabrochar potencialidades que, segundo ele, o ser humano trazia dentro de si. Porém, corrigia o palavreado sem compromisso, que era regra de ouro do ensino dos sofistas, tão combatido por ele, e que apresentava muita semelhança com o discurso empolado e sem consistência do século XX e do início do século XXI.

Sócrates criticava a eloquência rasa, algo ainda comum em meios religiosos, políticos e até mesmo científicos, e identificava, em cada educando, um ser imortal e logo, dentro das suas possibilidades, de educá-los não só para vida, mas, também, para transcendência da vida.

Segundo o filósofo grego, todas as pessoas são educáveis. Ele mesmo tratou de dar o exemplo maior quando enfrentou a morte com intrepidez, como mais uma experiência que, certamente, ensinaria algo a si mesmo, à sua esposa aflita, aos seus acusadores e aos seus discípulos.

Por isso, podemos considerar Sócrates como educador, pois tudo que realiza em vida tem por objetivo levar alguém a desabrochar a sua visão de mundo, a desenvolver suas potencialidades, a manifestar na sociedade o que tem de melhor. Ele, que possuía a virtude essencial para quem trabalha com a educação, a simplicidade, faz de sua condenação seu maior exemplo pedagógico para a posteridade. A partir de Sócrates, a problemática humana passou a ser evidenciada, permitindo dessa maneira à filosofia iniciar uma investigação sobre a dimensão ético-política da realidade.

Existe no pensamento socrático uma relação de reciprocidade entre o ser e o meio social. O ser, segundo Sócrates, deve abrir mão da vantagem pessoal (algo defendido pelos Sofistas, Trasímaco, por exemplo) para valorizar o bem-comum, o belo, o justo, ou seja, o bem da cidade, o bem de todos. Outra característica da filosofia socrática seria a revolução conceitual proposta por Sócrates. Busca-se, conceitualmente, a definição para chegar às características principais das ideias. Como disse o professor Herculano Pires:

“Sócrates descobriu o conceito e proclamou a sua importância para a vida humana. O conceito é a ideia-geral, a representação sintética do particular, mas por isso mesmo traz em si a chave de todos os segredos, de todas as dificuldades que encontramos no particular.” (PIRES, 2005: 115)

O conceito, então, segundo Sócrates, é o ponto de maior maturidade da discussão filosófica. É, também, o delta da relação pedagógica. Não que exista um fim em si mesmo a ser atingido, mas existe o segredo, isto é, aquilo que você não pode deixar de saber sobre uma determinada coisa. Essas ideias gerais, devido à falta de argumentação filosófica nas sociedades, nem sempre são percebidas. O que pretendia o pensamento socrático era não permitir que o aparente, o falso, o engodo, aparecessem como se fossem realidade.

O autoconhecimento

O autoconhecimento é insubstituível e intransferível. Pode ser comparado, em grau de importância, ao que representam as necessidades fisiológicas para o corpo, ou seja, a subsistência do ser depende do atendimento a determinadas demandas físicas. Por exemplo: não é possível viver sem beber água, sem se alimentar adequadamente, sem dormir etc. Assim também acontece com o nosso aparelho psíquico. Psiquicamente, o autoconhecimento é o processo através do qual a personalidade se desenvolve e amadurece; é o recurso indispensável para a prevenção de doenças psicossomáticas, meio pelo qual o processo de ensinagem e o de aprendizagem se encontram.

Sócrates sabia perfeitamente da importância do autodescobrimento. Por isso, traz o ensinamento do oráculo de Delfos (“Conhece-te a ti mesmo”) para a sua vida e diz que, antes de conhecermos qualquer coisa fora de nós, deveríamos conhecer a nós mesmos. Ninguém como ele, na Filosofia, preocupou-se tanto com a prática da virtude e com o aperfeiçoamento das possibilidades humanas, trabalho que considera importante para fazer um resgate de sua história. Para garantir a felicidade de uma cidade, portanto, seria necessário possibilitar aos cidadãos o autoconhecimento, isto é, o conhecimento de sua própria natureza. Esse seria o primeiro passo do processo de ensino-aprendizagem proposto por Sócrates.

A frase inscrita no oráculo de Delfos “Conhece-te a ti mesmo” teve em Sócrates uma exemplificação, até então, jamais vista. O professor Denizard Rivail levaria para a vida a influência socrática de partir de perguntas decisivas para chegar às descobertas a respeito da pesquisa mediúnica.

Desse modo, a perspectiva esperançosa de Sócrates a respeito do ser humano, a importância do conceito, do ser, da cidade, o autoconhecimento, entre outras coisas ensinadas pelo filósofo grego, estão inseridas na tradição pedagógica da qual Denizard Rivail seria herdeiro.

Bibliografia

BERGSON, Henri. Cursos sobre Filosofia Grega. São Paulo, Martins Fontes, 2005.

GRIMALDI, Nicolas. Sócrates, o Feiticeiro. São Paulo, Edições Loyola, 2006.

HADOT, Pierre. O Que é Filosofia Antiga? São Paulo, Edições Loyola, 2008.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. São Paulo, Lake, 2010.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo, Lake, 2004.

LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e Doutrinas Dos Filósofos Ilustres. Brasília, Editora UNB, 1997.

PIRES, J. Herculano. Os Filósofos. São Paulo, Feesp, 2001.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Pará, EDUFPA, 2002.

RIVAIL,H.L.D. Plano Proposto para a Melhoria da Educação Pública. Tradução de Albertina Escudeiro Sêco. Rio de Janeiro, Edições Léon Denis, 2005.

RIVAIL,H.L.D. Textos Pedagógicos. Tradução de Dora Incontri. São Paulo, Comenius, 1999.

WILSON, Emily. A Morte de Sócrates. Rio de Janeiro, Record, 2013.

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