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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2019

Sobre o autor

Marcus de Mario

Marcus de Mario

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       O jornal O Globo, em várias edições do mês de dezembro de 2018, publicou reportagens com acusações ao médium João de Deus, da cidade de Abadiânia, estado de Goiás, dizendo que ele é um médium importante do Espiritismo no Brasil. Não conhecemos o médium pessoalmente, nem nunca estivemos na instituição em que atua, e não temos como julgar seu trabalho nem sua pessoa. Cremos que o médium fará sua defesa e que tudo será esclarecido. A questão a que nos atemos é quanto à representação do Espiritismo, uma doutrina séria, de caráter científico e filosófico, com graves consequências de ordem moral.

       Esclarecemos que cirurgias e tratamentos espirituais não representam o Espiritismo. Médiuns de cura não são exclusividade do Espiritismo. E quando essas cirurgias e tratamentos se revestem de uma aura mística, como é o caso do médium João de Deus, passam muito longe de representar uma doutrina qual a espírita, que não admite nenhum tipo de ritual.

Não estamos aqui para debater a veracidade ou não das curas espirituais promovidas pelo médium e seus adeptos, pois isso não nos compete, e sim para dizer que nenhum médium, seja quem for, por si só, representa o Espiritismo, que é obra dos espíritos, tendo seus princípios muito bem explicados nas obras organizadas por Allan Kardec.

Lamentamos profundamente o equívoco que se faz entre o Espiritismo e os médiuns, tomando-se um pelo outro, quando absolutamente distintos. O Espiritismo é muito sério e nada tem a ver com instituições ditas espíritas que mais parecem hospitais místicos; portanto, em conflito com os postulados da doutrina que dizem representar.

       O médium João de Deus deve ser entendido como um médium espiritualista, isso porque em sua prática ele utiliza elementos que não se encontram na Doutrina Espírita; e a instituição em que atua está muito longe de ser um Centro Espírita, pois mais parece um hospital onde os médiuns praticam rituais incompatíveis com os princípios do Espiritismo. Isso nos remete a uma grave questão que acomete parte do movimento espírita brasileiro, quando a seriedade do Espiritismo em promover a transformação moral do homem e da humanidade é substituída por reuniões de tratamento espiritual, às quais multidões acorrem, para obter cura de males orgânicos, quando, na verdade, o Espiritismo não veio substituir a medicina, não sendo objetivo da Doutrina Espírita a cura de corpos, mas, sim, a redenção de almas.

       Temos assistido a verdadeiros espetáculos mediúnicos, em nome do Espiritismo, acontecendo pelo território nacional, com médiuns psicógrafos viajando e anunciando o recebimento público de cartas de familiares desencarnados; médiuns de pintura mediúnica fazendo apresentações de suas habilidades, como se os artistas plásticos de outrora estivessem a seu emprego; instituições ditas espíritas que priorizam o chamado tratamento espiritual, com práticas conflitantes com os princípios tão bem estudados e esclarecidos nas obras de Allan Kardec, que são a base segura da doutrina. Temos também acompanhado, com tristeza, editoras, distribuidoras e livrarias espíritas dando guarida a uma literatura mediúnica pobre, tanto em termos literários quanto doutrinários, fazendo um desserviço à boa divulgação do Espiritismo. Tudo isso culminando num lamentável equívoco jornalístico, mas que, cremos, não tenha acontecido de má fé, pelo contrário, pois que os próprios espíritas têm o péssimo hábito de endeusar médiuns de cura, deixando o tempo passar e não esclarecendo que esse e aquele médium nada têm a ver com o Espiritismo.

       O Espiritismo é uma doutrina espiritualista pelo motivo de ter como base a crença na imortalidade da alma, a existẽncia de Deus, a reencarnação; mas não se confunde com o Budismo, o Catolicismo, o Protestantismo, a Umbanda e outras doutrinas, todas igualmente espiritualistas, e que possuem princípios, crenças e práticas distintas. E em todas as doutrinas, em qualquer tempo, encontramos médiuns de cura, encontramos o fenômeno mediúnico, embora com outros nomes e outro entendimento. O que, infelizmente, acontece no Brasil é que muitos médiuns e organizações espiritualistas, não possuindo verdadeira identidade doutrinária, utilizam do movimento espírita para sua propaganda, passando por espíritas, quando na verdade nada têm com o Espiritismo. Mas de quem é a culpa? Dos próprios espíritas, que agasalham essa situação, deixando a falsa informação crescer ao lado da verdade.

       Ser médium e ter sua faculdade mediúnica exposta publicamente, tendo de manter-se humilde, honesto e fiel à Doutrina Espírita, não é fácil; é uma verdadeira prova, pois a fama, o renome, o assédio de todas as formas podem levar o médium a perder-se. Que o digam médiuns como Chico Xavier, Yvonne Pereira, Divaldo Franco, Raul Teixeira, entre outros, para citarmos alguns dos mais conhecidos, que em seus depoimentos nos falam dos desafios existenciais que enfrentaram, dos assédios dos espíritos inferiores, das bajulações humanas de que foram vítimas, da luta constante em se manterem íntegros e fiéis observadores dos princípios do Espiritismo. Quando o médium se torna público e se vê às voltas com multidões, o bom combate da humildade se vê seriamente ameaçado, e não são poucos os que sucumbem.

       Deixemos claro: não é missão do Espiritismo substituir a medicina. A mediunidade faz parte do Espiritismo, mas não o representa. A mediunidade curadora é uma verdade e possui sua importância, mas não pode substituir o estudo sério da doutrina e os esforços de cada adepto em realizar sua transformação moral. O Centro Espírita não é local para tratamentos espirituais intermináveis, com suas dependências sendo tomadas por macas, camas e todos vestindo branco ou qualquer outra cor. Essas coisas não são o Espiritismo, e é um dever do verdadeiro espírita, conforme assim considerado por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns, esclarecer a opinião pública quanto ao que é e o que não é Espiritismo; quem, de fato, é ou não é espírita, para que, assim, médiuns de cura e organizações espiritualistas e místicas não sejam confundidos com o Espiritismo, ou Doutrina Espírita, conforme seus princípios expostos nas obras basilares de Allan Kardec.

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