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Artigo do Jornal: Jornal Fevereiro 2019
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Este singelo artigo busca trazer algumas ponderações, breves reflexões sobre a prática em nossas casas espíritas da chamada assistência e promoção social, como um dos pilares presentes em nosso movimento e que precisa ser pontuado, para ser fortalecida, dado que é fonte de progresso e crescimento, sendo palco de momentos de alegria e de emoção, que nos fazem mudar como pessoas, como espíritos.

Essas atividades de cunho assistencial estão inseridas na cultura de nossas casas, e constituem formas sistemáticas, organizadas, de realização do bem, para permitir, por um lado, esse exercício pelas pessoas da casa, mas também para atender aos que necessitam, não se limitando apenas aos nossos irmãos mais vulneráveis economicamente, mas sim a todos que padecem de sofrimentos, de toda ordem, e que podem encontrar na casa espírita: o pão, a palavra, o abraço e o conforto.

Não se trata de apenas doar coisas a esmo. O amparo material é fundamental, posto que essa carência pode estar no eixo difusor do sofrimento de quem chega, mas trata-se também de um projeto de crescimento, de espaços de convivência, de auxílio mútuo, nos quais se adentra mais profundamente nas questões, e onde crescem os ditos trabalhadores e os chamados assistidos, como espíritos na romagem terrestre e que precisam, nessa troca, avançar, na bilateralidade da caridade, que ajuda quem acha que dá, e quem pensa que só recebe.

Os governos, nos seus diversos níveis, tem as suas políticas sociais, com seu corpo técnico, suas estruturas, e a casa espírita não visa pela assistência e promoção social espírita concorrer com essas ações, mas sim, dentro do possível, agregar, compondo as redes assistenciais como forma de coordenação e otimização desses esforços, mas entendendo que o nosso trabalho transcende essa função do benefício, envolvendo suporte espiritual, mas que não implica em proselitismo.

Aí nos defrontamos com uma primeira questão. Como conciliar nossos trabalhos, que atendem irmãos de várias crenças, e a nossa natureza religiosa. O proselitismo não deve ser o fim, e nem a moeda de troca nesses trabalhos, e eles devem se destinar aos que dele necessitam, independente da crença, e a palestra, o estudo, em que pese devam trazer a força da filosofia espírita e do saber evangélico, devem respeitar o pensar dissonante, sendo focados na emancipação, no aspecto humanístico, no resgate da esperança e não em convencer pessoas em pontos específicos da doutrina, em ações dissociadas do contexto daquele trabalho e do espírito que está ali.

Da mesma forma, o trabalho no bem na casa espírita, como oportunidade, não pode ser terceirizado, substituído por funcionários, sob a justificativa de eficiência, dado que o seu resultado não se mede apenas por números de bolsas ou atendimentos, e sim pelo envolvimento das pessoas da casa, pelo aumento de seu desprendimento, do amor em seus corações, frutos de ações que não cabem a delegação, posto que os efeitos se fazem de coração para coração.

A relação com políticos, e com recursos públicos, é também uma questão recorrente, e vem à tona que a relação com esses recursos não só fere a laicidade do Estado em um aspecto, como coloca os trabalhos dependentes de financiamentos públicos, por vezes sujeito ao sabor do resultado das eleições, em que pese se reconheça que na prática temos um sem número de creches e hospitais ligados a casas espíritas e que são objeto de verbas governamentais, além de doações privadas, e em todos esses casos, é mandatória a transparência na aplicação dos recursos, o respeito as finalidades, aos preços praticados, e a adequada e formal prestação de contas, constituindo  orientações seguras para o cotidiano.

Trabalhos são feitos por pessoas, mas a promoção que se busca é do desvalido, e não dos seus dirigentes.  Em um país de raiz patrimonialista e autoritária como o nosso, a tentação do trampolim, da evidência, do personalismo, além de criar dependência, centralização excessiva, com o tempo afeta a sustentabilidade dos trabalhos, por trazer desvios de finalidade da coletividade para a personalidade, que vira um personagem, no pouco emancipatório modelo dos “meus pobres”.

Um outro fantasma que nos assola nessa prática é o medo do assistencialismo, ou seja, do bem que causa dependência, na famosa metáfora da vara e do peixe. Quanto se deixou de fazer por esse medo! Todo trabalho dessa natureza é um pouco de peixe, é um pouco de vara, mas é importante entender que o tempo da assistência é diferente, pois tratam-se de problemas de raízes profundas, que passam do material, pelo espiritual e pelo psicológico, e por vezes é preciso dar muito peixe até que a mão se anime a aprender a pescar.

Uma outra palavra que anda pelos trabalhos é o conceito de meritocracia, na qual pelo seu lado positivo traz a sabedoria do “ajuda-te que o céu te ajudará”, favorecendo o envolvimento na assistência, que cada um faça sua parte e se emancipe, sem perder a dignidade, bem exemplificada no bazar que vende peças a roupas irrisórias, para simbolizar a conquista, ou no auxílio na limpeza após o dia de sopa, tratando o irmão como alguém que pode colaborar, reduzindo a nossa tendência a enxergar neste apenas oportunismo.

Mas a meritocracia pode ter um lado funesto, no sentimento vil de controle, na qual entendemos, erroneamente, que o trabalho é para controlar pessoas, e focamos na prestação de contas de quantias pequenas doadas, com documentos que pouco impedem o engodo, mas prezando a sensação de aplicação correta dos recursos, que pela sua centralidade, nos faz esquecer o que estamos fazendo ali, para além de um frio dever cumprido, ou de  gráficos no mural da casa espíritas com número de atendimentos, esquecendo de enxergar os avanços reais, por vezes de difícil mensuração.

Nos tempos atuais, com tristeza percebemos também que essa pauta mingua, andando desaparecida de artigos, livros e palestras, com trabalhadores envelhecidos, sendo substituída essa vertente por outras ordens de atividades cuja interação humana é menos preponderante. Vê-se, com igual tristeza, produtos de cunho doutrinário, eventos, e outros que geram recursos financeiros e que não tem a sua destinação, mesmo que parcial, para trabalhos de assistência e promoção social espírita, o que gera um movimento espírita ensimesmado, descolado do mundo real.

A assistência e a promoção social espírita são viabilizadoras do amor, que nos invade nessas gratificantes atividades, que tiram a prática do bem dos púlpitos das palestras e das orientações na mesa mediúnica e trazem esta para o plano encarnado, envolvendo na sua ação os dois planos da vida, sendo um hábito a ser cultivado no jovem e na criança, e um compromisso para o adulto, para que ali ele exercite seu coração nessa vida ciclópica, sendo melhor a cada dia, o que não se dá por mágica.

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