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Artigo do Jornal: Jornal Abril 2019

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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Na condição de Mestre dos mestres, em todas as experiências que viveu Jesus apresentou uma rota para que pudéssemos atingir a plenitude existencial. Ele sabia que não seria fácil lidar com as forças que se tornam opositoras na longa jornada rumo à iluminação interior, na qual se apresentam diversos obstáculos e até mesmo impedimentos difíceis de serem transpostos. 

E antes mesmo de seguir ao encontro dos apóstolos, Jesus teria passado 40 dias no deserto, conforme as narrativas do Evangelho, no qual enfrentou forças sombrias que se colocam no caminho de todo aquele que deseja trilhar uma jornada de transformação.

Na sabedoria antiga, o deserto era considerado “a morada dos demônios”, e é extremamente significativo que Jesus tenha seguido inicialmente a essa “morada”. Do ponto de vista psicológico, nenhuma transformação é possível se o indivíduo não reconhece os próprios aspectos sombrios, pois é lá, na escuridão do ser, que os maiores inimigos se encontram. Para tal, é necessário aquietar-se, dedicar-se escutar a si mesmo e analisar o próprio comportamento.

A palavra “demônio” ou “satan” tem em sua raiz hebraica o significado de “bloqueio ou impedimento”, assim como as forças que nos “distraem”, conforme anota o rabino Nilton Bonder.  Enquanto o indivíduo permanece na imaturidade emocional, esses impedimentos e distrações são sempre vistos na condição de eventos externos, o que leva ao comportamento de buscar culpados quando sucedem eventos indesejados.

Em um olhar simbólico, Jesus ensina que cada ser deve ir ao próprio deserto, lugar onde a vida tornou-se árida e vazia, e onde habitam todos os bloqueios, impedimentos e desculpas que construímos ao longo da existência para não realizar a jornada heroica de transformação.  As “partes” áridas da nossa personalidade necessitam florescer, e para que isso ocorra é necessário conhecer todos os impedimentos para que a essência divina se manifeste em nossa personalidade.

“E após 40 dias, Ele sentiu fome. E disse-lhe o diabo: Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão. E Jesus lhe respondeu, dizendo: Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus.”

Na aridez dos sentimentos a “fome” pode vir de várias formas: solidão, ingratidão, indignação, depressão e uma total sensação de vazio existencial, dentre outras.   São muitos aqueles que tentam fugir dessas dores da alma buscando “alimentos” artificiais. Drogadição, comportamentos compulsivos e autodestrutivos, agressividade, etc ... são demonstração de que há uma tentativa de se compensar esse vazio, porém de uma forma equivocada. Para esse tipo de “fome”, apenas um alimento pode servir, que Jesus aponta como sendo “a palavra de Deus”. A “palavra de Deus” não deve ser entendida de forma literal, como sendo apenas o que se encontra “nos livros sagrados”, mas de tudo aquilo que pode promover uma conexão com o divino, fazendo com a alma se reestruture e harmonize, mesmo enfrentando os desafios naturais da existência.

Mas prosseguindo na tentativa sombria ... “disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu.” “E Jesus, respondendo-lhe disse: Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás.”

O Poder é uma das grandes “distrações” humanas. A sensação que dele emana ilude o ego fazendo-o crer que já atingiu um estado de superioridade, quando é justamente o contrário que ocorre. O poder, quando mal vivenciado, muitas vezes leva o indivíduo a não atentar para a consciência e a ética, o que sempre traz graves consequências. O psiquiatra Carl Gustav Jung estabeleceu que poder e amor são forças opostas, e quando estamos voltados somente ao poder, no seu sentido egoico, o amor se distancia das nossas vidas. Adorar o Senhor não é apenas dizer da “boca pra fora”, mas exemplificar em atos que o amor divino mobiliza nossas atitudes.

Por fim, a força sombria faz sua última tentativa:

“Levou-o também a Jerusalém, e pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo.” “Porque está escrito: Mandará aos seus anjos, acerca de ti, que te guardem. E que te sustenham nas mãos, para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra.” E Jesus, respondendo, disse-lhe: Dito está: Não tentarás ao Senhor teu Deus.”

Nessa 3ª “Tentação”, o Mestre apresenta o exemplo da humildade, como sendo pré-requisito essencial para todo aquele que deseja iluminar-se. A humildade vem de humus, que significa “terra”, sendo a mesma raiz de “homem”. A humildade proporciona ao indivíduo observar-se na real medida de suas qualidades, sem que necessite se vangloriar de qualquer superioridade, assim como das suas limitações, sem que necessite diminuir-se perante os outros. A humildade nos irmana, aproxima, pois entendemos que todos somos humanos e que para atingir o “alto” é necessário estar com os pés fincados no chão.

Além disso, Jesus volta a reconhecer na divindade a fonte da qual emana todo o poder, e para qual deveremos orientar nossa energia, sentimento e propósitos. Longe de propor um “fanatismo religioso”, isso significa ter a vida vinculada a um propósito superior. Quando isso ocorre, poderemos suportar e transpor as intempéries da vida de maneira harmoniosa, cientes de que a lei da vida é de amor, justiça e evolução.

As “tentações” sempre estarão em nossos caminhos, e seremos menos vulneráveis a elas se visitarmos regularmente nossos “desertos”, extraindo dele as lições preciosas para nos alimentarmos do pão da conexão divina.

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