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Kardec aplicava com rigor esta norma de Erasto: "Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea. [...] sobre essa teoria poderíeis edificar um sistema completo, que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade [...]". (O Livro dos Médiuns, 230.)
Tanto que baniu do movimento espírita a preocupação com detalhes da vida extraterrena, interpondo contra os fantasistas do além e do aquém poderosa barreira, ao decretar na mesma obra: "As questões sobre a constituição física e os elementos astronômicos dos mundos se compreendem no campo das pesquisas científicas, para cuja efetivação não devem os espíritos poupar-nos os trabalhos que demandam" (n. 296, 32.ª pergunta).
 
Às ciências competentes, pois, é que cabe o veredicto, não à Doutrina. Mas é justo perguntar: e a vida espiritual noutros planetas? Sim, é competência do Espiritismo. Demonstrou a experiência espírita, porém, que reduzido mérito há em situá-la nestes ou naqueles quadrantes do Universo, afinal se espraia por todos. Ante tais comunicados, crucial é a aferição do grau de veracidade que apresentem. Kardec aconselhava, para tanto, o confronto e a depreensão da eventual concordância de ensino sobre o tema, sob a chancela inflexível da razão, da lógica e, se cabível, dos dados positivos já adquiridos, ou seja, do conhecimento científico em vigor. (O Evang. Seg. o Esp. Introd., II.)
Veja-se o caso da informação de que Marte abrigaria vida física e moralmente inferior à da Terra. Não era expressão da universalidade do ensino espírita, até porque informes de natureza secundária não reclamavam atenção do controle universal. (Cf. Ob. cit. Introd., II.) Em O Livro dos Espíritos, nota ao n. 188, Kardec apresenta em caráter transitório o ensino que lhe fora dado registrar até aquele momento, pois o relega ao patamar de mera hipótese, valendo-se da forma verbal francesa correspondente ao nosso futuro do pretérito: "Marte lhe seria ainda inferior".
Esta informação foi atualizada pelo próprio Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo, III, 8 a 12. O texto é considerado parte integrante das Instruções dos Espíritos, mas quem o redige, à guisa de Resumo do ensino de todos os espíritos superiores sobre Mundos superiores e mundos inferiores, é Allan Kardec! E o mestre não declina ali o nome de nenhum planeta sequer, como quem sinaliza para a segurança do fato de que só as generalidades passaram pela contraprova da universalidade, devendo ser abandonado o mérito das localizações, na certa, por absoluta falência dos meios de aferição.
Marte é mais compatível com um daqueles "mundos transitórios" de O Livro dos Espíritos, ns. 234 a 236. Sua superfície é estéril porque os que o habitam de nada precisam; são espíritos errantes, que ali se encontram com o fim de instruir-se e de repousar de erraticidades muito longas e um pouco penosas, gozando de maior ou menor bem-estar conforme a natureza de cada um. Como disse Kardec: "Ninguém poderá negar que há, nesta idéia dos mundos ainda impróprios para a vida material, e entretanto povoados de seres apropriados ao seu estado, alguma coisa de grande e sublime, onde talvez se encontre a solução de mais de um problema".
A outras hipóteses, contraponho que nada que venha de uma única fonte mediúnica, seja qual for, jamais poderá ser considerado inquestionável. O Livro dos Médiuns assegura que "o melhor" deles "é aquele que, simpatizando somente com os bons espíritos, tem sido o menos enganado", assim como preconiza que, "por muito bom que seja, um médium jamais é tão perfeito, que não possa ser atacado por algum lado fraco". (Cap. XX, n. 226, 9.ª e 10.ª)
De mais a mais, dever-se-ia confiar cegamente no relato do espírito da mãe de Chico Xavier, de que a suposta humanidade marciana, por exemplo, evoluiu mais rápido do que a terrena e nunca precisou da destruição para viver? Que foi feito, então, das suas fases de mundo primitivo, ou de provas e expiações, ou mesmo de regeneração?
A vida só transcorre sem morte, isto é, fora do alcance da universal lei de destruição, quando o espírito está desencarnado, de posse apenas de seu corpo espiritual. Os marcianos acaso não precisaram da matéria densa para evoluir? Eis aí um convite ao rustenismo, com suas teses dissidentes da reencarnação como regra de punição e do Jesus meramente fluídico, ambas formalmente rejeitadas pelo Codificador do Espiritismo.
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