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Atualmente, com tantos fatos desastrosos, comportamentos em completo desacordo com os princípios ético-morais e fraternos, gerando crises que afetam milhões de criaturas; ocorrências em que a generosidade e o respeito até para consigo próprio parece terem se esvaído na poeira dos tempos; temos dificuldade, muitos de nós, sobretudo os que ainda não conhecemos as leis naturais, de compreender o que está se passando.

No campo da política, não apenas em nosso país, mas em diversos outros, mundo afora, as escolhas têm sido as mais infelizes, os desmandos e as arbitrariedades espantosos; na área social, o abuso e o descaso competem entre si para ver qual ganha mais terreno; no âmbito pessoal, a egolatria, o personalismo, a ambição desmedida, vêm esmagando a semente divina plantada em nossas consciências, sua voz sufocada por mãos férreas interesseiras e implacáveis.

Queixamo-nos de tudo e de todos, acreditando, muitos de nós, que alguém nos trará a solução de tantas agruras... Que será o governo, serão as instituições, as polícias, as igrejas, os líderes de todo tipo, os nossos mentores, guias, gurus, enfim, qualquer outro menos nós mesmos... Ansiamos por decretos, leis, preceitos, regras e regimentos que possam acabar com a violência, com a fome, com o descalabro na saúde, na educação... Qualquer coisa, desde que nos chegue pronta e não exija de nós nenhum sacrifício, nenhuma renúncia – só nos proporcione o bem que almejamos...

Deolindo Amorim, em seu livro O Espiritismo e os Problemas Humanos, no capítulo A Ordem Econômica e a Ordem Moral, assegura, com muita propriedade, que “a reforma das estruturas socioeconômicas não exclui a necessidade da reforma individual; que “o fato econômico, portanto, embora seja parte integrante da ordem material, não está fora da ordem moral, desde que se tenha concepção imortalista da História, isto é, da História à luz da crença na imortalidade do espírito”.

A questão socioeconômica, portanto, não poderia receber um melhor enfoque doutrinário, demonstrando, em primeiro lugar, a relevância do indivíduo, ser inteligente da criação (LE 76), na construção das estruturas necessárias à sua vida de relação de um modo geral; e, em segundo, a importância da ordem material, ou seja, do mundo material e suas contingências como ferramenta para elaboração do progresso do espírito imortal.

Na questão 789 de O Livro dos Espíritos, os mentores esclareceram que “quando a lei de Deus for por toda parte a base da lei humana, os povos praticarão a caridade de um para o outro, como os indivíduos de homem para homem, e então viverão felizes e em paz, porque ninguém tentará fazer mal ao vizinho ou viver às suas expensas”.

E Kardec completa essa resposta de forma, como sempre, lúcida e brilhante: “A humanidade progride através dos indivíduos que se melhoram pouco a pouco e se esclarecem; quando estes se tornam numerosos, tomam a dianteira e arrastam os outros”.

Não podemos, consequentemente, ignorar a nossa responsabilidade pessoal, tanto naquilo que nos diz diretamente respeito, como perante a coletividade de que fazemos parte, interagindo no contexto que a todos e a tudo atinge. Somos todos interdependentes e corresponsáveis pelos acontecimentos que se passam em nossa vida e na vida dos que compartilham essa nossa etapa reencarnatória.

Quando Kardec pergunta aos Espíritos superiores qual a missão dos espíritos encarnados, a resposta é taxativa: “Instruir os homens, ajudá-los a avançar, melhorar as suas instituições, por meios diretos e materiais – do que deduzimos que não nos basta esperar, é imprescindível agir, logicamente sempre dentro de princípios morais e fraternos.

Voltando a Deolindo Amorim, ainda no mesmo livro e capítulo, verificamos que ele concorda absolutamente com essas instruções ao afirmar: “a necessidade fez o homem criar a riqueza, isto é, promover o desenvolvimento econômico, aperfeiçoar os meios de que carece para aumentar a produção e aproveitar os recursos da terra, mas evidentemente o homem não deve nem pode abrir mão do seu livre-arbítrio para esperar que a natureza trabalhe por si mesma ou que a inteligência divina se imiscua nas atividades privadas, na orientação de minúcias e particularidades do plano material. Tal interpretação da História, excluindo a responsabilidade humana dos atos concernentes à ordem material, conduziria inevitavelmente ao transcendentalismo puro”.

É hora, portanto, espíritas que somos, de despertar para o fato de que, como diz o refrão, Deus age junto aos homens através dos homens; hora de assumirmos a nossa condição de copartícipes na obra da criação (LE 132), promovendo dia a dia, passo a passo, a nossa reforma individual, apesar das nossas dificuldades, ou melhor dizendo, justamente devido às nossas dificuldades – reforma essa que promoverá igualmente a reforma para melhor do mundo onde ainda caminhamos...

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