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Artigo do Jornal: Jornal Abril 2019

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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É inegável que os pais desejam sempre o melhor para os seus filhos. Não é por outro motivo que correm para enxugar suas lágrimas quando os veem chorar, que os acalentam diante de dificuldades, que os orientam sugerindo boas escolhas. São louváveis tais comportamentos. Mas, nesta ânsia de poupar dores e sofrimentos aos seus meninos – inevitáveis na vida –, estão sujeitos a cair no extremo oposto, incorrendo em atitudes que só comprometem o aprendizado de comportamentos adequados e habilidades socioemocionais necessários à vida em sociedade.

Ao se tentar contornar as birras, crises de choro, exigências descabidas, intolerância a regras, impaciência e todo tipo de situação conflituosa mediante a satisfação dos desejos da criança, comete-se um erro cujas consequências não tardarão a se manifestar. O cérebro registra a relação entre ato e consequência, e a aprendizagem que daí resulta é: “se me contrariam, eu reajo até que façam o que eu desejo”. E é com essa leitura equivocada que ela vai enfrentar o mundo.

Se, além desse modelo atitudinal, a criança vive em um núcleo familiar que acredita que se deve ser feliz o tempo todo, o quadro pode se agravar. Há pais que julgam que seu papel é evitar situações nas quais tenham que mediar conflitos, impor limites, dizer não; que se esquivam de vivenciar estresse diante de quadros problemáticos ou que alimentam sentimentos de culpa por serem rígidos com os filhos. Para eles, o que importa é a busca pelo prazer, pela alegria e bem-estar constantes de todos daquele núcleo familiar. E isso também é registrado pelo cérebro em desenvolvimento.

Deriva dessa conjuntura um ser humano frágil, inabilitado para o gerenciamento das suas emoções, principalmente das que ameaçam o seu conforto, sua segurança e seu poder.

A face visível dessa fragilidade pode ser encontrada em comportamentos desastrosos, violentos e, até mesmo, autodestrutivos, como as mutilações do próprio corpo ou, o que é pior, nas crises de depressão que resultam, não raro, em suicídio.

No momento presente, é assustador o número de jovens que tiram a própria vida, muitas vezes por razões que poderiam ser perfeitamente contornadas. As motivações para tais atos são variadas e complexas, não nos permitindo, em um espaço tão restrito, analisá-las. Há, porém, certo consenso de que aqueles que assim agem estão propensos a ter uma baixa taxa de resiliência, ou seja, uma incapacidade de enfrentar adversidades e delas sair mais fortificados.

Mas não há como se tornar resiliente se não há problemas a enfrentar. Tampouco, quando não se aprendeu a conter os próprios impulsos, a superar frustrações e a encarar os problemas de frente, na tentativa de solucioná-los.

Emmanuel, em Vinha de Luz, considera ilógico que o filho se aproxime do pai com a única intenção de receber carinho. No seu entender, “a mente juvenil necessita aceitar a educação construtiva que lhe é oferecida, revestindo-se de poderes benéficos, na ação incessante do bem[...] A sede de ternura palpita em todos os seres, contudo, não se deve olvidar o trabalho que enrijece as energias comuns, a responsabilidade que define a posição justa e o esforço próprio que enobrece o caminho”1.

Diante de uma realidade na qual os adolescentes e os jovens se mostram, em grande número, atordoadas, sem referências e mal dotadas de habilidades socioemocionais, o apontamento do Mentor reveste-se da maior pertinência. É preciso prepará-los para o trabalho, a responsabilidade e o esforço próprio. 

E para que se tenha a certeza de que isto é possível, as redes sociais, tão popularizadas entre quase todas as camadas sociais, são pródigas em nos revelar pessoas que, apesar de terem nascidos e vividos em ambientes com poucos recursos financeiros, sofrerem alguma forma de discriminação ou passarem por provas difíceis, conseguiram superar todos os desafios, conquistando espaços, galgando posições de destaque, exemplificando o poder da resiliência.  A pesquisadora Joana D’Arc Felix, de 55 anos, ganhadora de 82 prêmios é uma delas. Graduada em química, com mestrado e doutorado na Unicamp, conseguiu ser aprovada em pós-doutorado na Universidade de Harvard, nos EUA, mesmo tendo sua trajetória de vida marcada por muita luta e preconceito, desde os seis anos de idade.

Outra prova de superação é a da bailarina Ingrid Silva, filha de uma empregada doméstica e de um funcionário aposentado da FAB, que também venceu obstáculos e preconceitos, e que há mais de dez anos é destaque nos quadros do Dance Theater of Harlem, em Nova York.

Essas, e muitos outros, dão-nos a certeza de que as dificuldades nos fortalecem.

 

 


1 Emmanuel (Espírito). Vinha de Luz.  Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Cap.115 – Armai-vos, FEB: Rio de Janeiro, 1998.

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